O Estado pegou boleia — JÚNIOR RAFAEL

Dizem que em Maputo ninguém anda a pé por gosto, só por desespero ou falta de chapa. Os chapeiros são reis sem coroa e com buzina, governando as estradas como se fossem avenidas do seu quintal. O cobrador, com o braço de fora e o cigarro pendurado, anuncia: “Entra, mas paga já, porque confiança morreu ontem”.

Quando os passageiros reclamam da falta de respeito, os motoristas respondem com filosofia: “Se não gosta, desce e vá a pé. O Estado que te leve”. Mas, coitado do Estado! Ele já não tem pernas, muito menos autocarros. O município, em vez de mandar ordem, também apanha boleia: entra pela porta da frente, paga meia tarifa e finge que não viu nada.

E a cena repete-se todos os dias: chapas encurtando rotas como quem corta bolo em festa de criança. “Ah, não vamos até ao fim, só até meio. Quem quiser que continue com os pés”. E o povo, pacato refém, obedece, porque se reclamar muito, o chapeiro fecha a porta na cara e segue viagem com ar de general vitorioso.

No meio disso tudo, o Estado está ali, a assistir, como vizinho curioso na janela. Em vez de impor ordem, prefere fazer de conta que os buracos na estrada são estratégia de mobilidade: “Quem anda devagar não se atrasa”.

E já que o município não sabe como resolver, alguns sugerem que se estude a possibilidade de um metro em Maputo, porque, convenhamos, os chapas já se julgam comboios desgovernados, só lhes falta andar nos trilhos. Aí sim, os transportadores privados podiam ser gentilmente retirados das estradas e deixados para abrir suas próprias linhas de táxi… de bicicleta. Outra medida inteligente seria instalar câmeras em todas as avenidas, não para ver quem passou no sinal vermelho (isso já é rotina), mas para identificar os verdadeiros artistas do volante: os motoristas prevaricadores, que acreditam que cada curva é uma pista de rali.

Mas cuidado, Maputo! Se a coisa continuar assim, não tardará o dia em que os chapeiros vão criar a “Constituição das Estradas Paralelas”: artigo 1º – o passageiro não tem direitos; artigo 2º – o motorista manda; artigo 3º – o município só observa e, quando pode, também apanha boleia.

Portanto, fica aqui o apelo: se o município não sabe governar os chapas, que pelo menos abra uma escola para ensinar a sorrir enquanto cobra caro. Afinal, humor também é serviço público.

JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA

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