Nem a chacota de meio mundo coibiu Albino Mulundze

Como acontece com muitos jovens de quase todas as regiões deste Moçambique, com 14 anos de idade, Albino Henriques Mulundze com oitava classe deixou a província de Gaza, Sul do país, e rumou para o que muitos consideram eldorado, a cidade de Maputo.

Pretexto formal, como também sucede com muitos: prosseguir os estudos. Há quem se move para a capital do país convicto de que facilmente vencerá na vida, mas fracassados igualmente abundam na “selva” também designada por “cidade das acácias” ou “pérola do Índico”.

Cedo a realidade nua e crua se abateu sobre Mulundze e o jovem gazense caiu na real. Maputo não era o lugar de delícias e riquezas, mas de desafios acrescidos, impróprios para amadores.

Por algum tempo partilhou aposentos com pessoas de boa-vontade, mas avaliar pelo rótulo que assaca a essa experiência — uma verdade “faculdade” da vida — facilmente se depreende que tal convivência [com os “tios”] não foi “pera doce”.

Já a aprender a arte de sapateiro, julgou possuir meios bastantes para arrendar uma habitação nos subúrbios da cidade de Maputo [Maxaquene A], onde vive durante 14 meses, enquanto buscava espaço próprio e definitivo para se estabelecer.

Fracassada a ideia de prosseguir os estudos [reprovou por duas vezes nos exames de admissão na Universidade Eduardo Mondlane — a mais antiga instituição de ensino superior pública de Moçambique], Albino Mulundze teve de procurar fontes de subsistência.

Sem profissão alguma, fez-se de aprendiz de sapateiro. Esta opção lhe valeu zombaria por parte de alguns familiares, amigos, conhecidos e vizinhos, mas não se abalou e seguiu firme e hirto na picada para a sobrevivência.

Sem muito campo para manobras, persistiu no “curso” de sapateiro até ganhar experiência suficiente para “caminhar” sozinho. Hoje gaba-se de ser “mestre de ao cheia” e com a profissão consegue garantir “pão e manteiga na mesa” da família que constituiu.

“Optei por aprender a arte de sapateiro como transitória, porque alimentava a esperança de ingressar no ensino superior. Fracassadas todas as tentativas, acabei me conformando e hoje me sinto orgulhoso da profissão que aprendi e abracei, com a qual hoje garanto o sustento da minha família”, gaba-se, com ar aparentemente ufano, Albino Mulundze, hoje com 36 anos de idade, marido de alguém e pai de duas filhas.

Adquiriu uma porção de terra no distrito de Boane onde ergueu casa própria, feito que poucos “licenciados” e/ou “mestrados” logram, porque alimentam a “vaidade” de que só podem executar tarefas do seu “nível”.

Mesmo oficialmente proibida a venda da terra em Moçambique (números 1 e 2 do artigo 109 da CRM), em três prestações Albino Mulundze pagou 25 mil meticais pelo espaço onde hoje vive com a família e sente-se com “autoridade moral” de aconselhar quem alimenta esperanças de que o Estado lhe deve prover emprego.

“Jovens, parem de abraçar a comodidade e a preguiça e sigam os vossos sonhos com que ousadia e sem vergonha, pois todo trabalho dignifica o homem e quem não trabalha não come! ”, exorta Albino Mulundze.

Mesmo sem ter frequentado o tão sonhado ensino superior, Albino Mulundze se diz “realizado” com a arte que possui e jura que um dia deixara de exercer a sua actividade na via pública. “Terei um estabelecimento de sapataria e vou querer ver a cara dos que me ridicularizaram, muitos deles ainda hoje desempregados”.

EUGÉNIO MULHOVO (texto e foto)

Este artigo intitulado foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 10 de Outubro de 2025.

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