O azar que lhe salvou a vida — LEANDRO PAUL

O sol ardia impiedoso sobre os subúrbios de Maputo, derretendo o asfalto e o ânimo dos que por ali passavam. Era meio-dia. O calor ondulava no ar, e o silêncio apenas era quebrado por vozes distantes, o riso de crianças e o som metálico de um rádio velho que tocava marrabenta numa casa de chapas enferrujadas.

Abdulremane, 26 anos, desempregado e sem rumo, caminhava distraído pelas vielas poeirentas, com o estômago vazio e o bolso leve. Trazia nos olhos o cansaço dos que procuram uma saída e só encontram muros.

De repente, o som do rádio prendeu-lhe a atenção. Era uma melodia quente, viva, que o fez esquecer por instantes o peso da vida. Parou. Olhou para dentro da casa. O pequeno aparelho estava ali, sobre uma mesa de madeira carcomida, reluzindo ao sol.

Se o dono não está, por que não?, pensou.

A tentação venceu a prudência. Depois de espreitar pelas janelas e confirmar que não havia vivalma, forçou a porta e esticou o braço em direcção ao pequeno tesouro. Mas o destino, irónico e severo, tinha outros planos.

Uma vizinha, ao ouvir o ranger da porta, aproximou-se desconfiada. Viu a sombra de um corpo a mexer-se lá dentro e gritou:

Ninja! Ninja!

O grito espalhou-se como fogo em capim seco. Em segundos, o bairro inteiro acordou. Homens, mulheres e jovens correram de todos os cantos, empunhando paus, pedras, catanas e garrafas partidas. A raiva colectiva substituiu o calor: o ladrão tinha de pagar com a vida, por causa de outros furtos anteriores.

Abdulremane sentiu o coração a saltar-lhe do peito. Fugiu como quem foge da própria morte. Correu entre carros, tropeçando, cambaleando, enquanto atrás dele rugia a multidão, sedenta de vingança.

Atravessou uma rua movimentada sem olhar para os lados. Ouviu apenas o som do motor e, logo a seguir, o estrondo.

Catrapumba!

O corpo foi projectado e caiu no asfalto. Ficou ali, imóvel, o sangue a manchar o chão quente. As costelas quebraram-se como galhos secos. Mesmo assim, os populares aproximavam-se para o acabar.

É ladrão! Queimem-no! – Gritavam, alguns já com garrafas de gasolina nas mãos.

Mas o inesperado aconteceu. O motorista do chapa que o atropelara saiu do veículo e colocou-se à frente do corpo ferido.

Deixem-no! Já basta! Está quase morto! – Gritou.

Com a ajuda do cobrador, levantou o corpo ensanguentado e levou-o para o hospital mais próximo. O motor rugiu, levando com ele não apenas um ferido, mas também uma lição amarga sobre o limite entre a sorte e o azar.

Foi ali, entre sirenes e dores lancinantes, que Abdulremane percebeu a ironia da vida: tinha sido, afinal, salvo pelo mesmo acidente que quase o matou.

Hoje, deitado na cama do hospital, com o peito enfaixado e os olhos perdidos no tecto, diz com voz fraca e um meio sorriso:

– Se aquele chapa não me tivesse atropelado, eu teria sido queimado vivo. Há azares que dão mesmo sorte.

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 21 de Outubro de 2025, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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