“As bibliotecas vivas” — CÉSAR NHALIGINGA

Uma idosa, em pleno dia de sol ardente, escovava seus dentes ao meio-dia, usando a mulala (raiz tradicional e medicinal), varria o pátio que, para seu repouso entrou em contacto com a árvore que teria plantado em sua residência.

Era a mais velha do bairro, ninguém saberia dizer se aquela frondosa sombra foi por si plantada ou pelos seus ancestrais, mas ela servia de local para desabafo da coitada velha que, por debaixo dela guardava um pote de água tapado por uma peneira e um tronco de coqueiro que fazia de banco para se acomodar.

Quem visse de longe importava dizer que a “mãe dos noventa anos é feiticeira”, sem motivo para essas expressões, mas como se tem dito, a ocasião faz a percepção de quem não pretende escutar para melhor compreender do que terá visto.

Vovó como está? Perguntou um jovem corajoso. Quem passava pela rua e ouviu vozes e rumores naquele quintal, mas quando espreitou apenas uma só pessoa estava lá. Espantado ficou e comunica ao seu acompanhante.

Me parece que naquela casa a proprietária fala com plantas, se não estiver a enlouquecer, pode ser uma velha perigosa”, disse o atrevido, todo admirado!

Isso é normal, respondeu o amigo na sua maior consciência, a comunicação com a natureza é importante. Mas a sua resposta não convenceu a quem viveu o assunto na primeira pessoa que por sua vez, começa com rumores pelo bairro para dar a entender do cenário por si vivido.

A vizinhança sabia que aquele acto era constante para a velha, uma vez não ter filhos e seria forma de desabafo junto do que por perto estivesse.

A velha é calma e nunca preocupou a nenhum morador naquele bairro, tal que só se fazia a rua para limpar seu recinto. Para confeccionar seu prato-dia, não precisava ir ao mercado, tinha no seu quintal um pouco de tudo, que para efeito constitui a base para sua alimentação.

De frasco nas mãos, não largava seu rapé, único vício que carregava em suas veias, sem bengala, isso deixou o jovem atrevido mais preocupado, afinal a idade avançava para o uso desta.

— Companheiros, não sabem o que vi hoje, uma vovó comunicava-se com uma grande árvore, sem frutas nem folhas, apenas pousavam pássaros que entre eles também cantavam, julguei estranho, o pior apontava tudo com uma mulala que trazia em suas mãos…

— Amigo evitemos pensar alto sobre ela, é solitária, desde que a conheci nunca vi alguém sentado naquele quintal trocando palavras com a senhora, mas as pessoas apontam dedo alegando ser uma “feiticeira”.

O que não sei na verdade se alguém teve a sorte de ser enfeitiçado ou poderá ter visto outro por ela ferido. Notamos como são interessantes a forma que se propaga a “fofoca” sendo uma ferramenta social que se usa para manchar a vida do seu próximo, pois que muitas das vezes tratam-se de expressões maliciosas que ao ver de qualquer um admitem o erro pela situação, sem defesa dos familiares.

Meia cega e desgastada da vida, falta de atenção e atendimento, vive a anos isolada, sem contacto com outros, ainda é tida como “feiticeira”, o que levou os seus vizinhos a não aproximação, antes terem alegado ser alguém de bom senso.

A coitada foi vitimada por um fulano que se fazia passar da sua rua, que repentinamente teria comentário maldoso, pelo facto de ter visto a comunicar-se com seus pertences: “quem me dera se tivesse a vida igual a dos outros, até hoje não sei o que resta de mim, afinal me encontro em triste situação, sem visita, nem apoio, mas a vida me convém a ter esta dinâmica”.

Disse a triste vovó, limpando o rosto cheio de lágrimas, quem evitava sorriso, uma vez não ter dentes na parte frontal, língua amarelada e lábios castanhos de tanto mastigar a “escova tradicional”.

“Se já é difícil conviver com nossa própria família”, imagine ter que nos relacionar com pessoas alheias em diversas áreas profissionais e distintos ambientes organizacionais.

Precisamos perceber que o “poder da fofoca na sociedade”, além de devastador, pode também, em alguns casos, ser destruidor.

Sejamos mais atenciosos e protegemos os nossos idosos, são nossas bibliotecas vivas, lembrando que um dia chegaremos aquela idade.

CÉSAR NHALIGINGA

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 20 de Novembro de 2025, na rubrica de opinião denominado OPINIÃO

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