O conflito de Cabo Delgado e o risco de regionalização — RAFAEL NAMBALE

Cabo Delgado transformou-se num tabuleiro onde interesses internos e externos disputam território, influência e recursos, deixando para trás aquilo que deveria ser a prioridade absoluta: a vida dos moçambicanos.

O conflito já ultrapassou a condição de uma crise localizada. A expansão da violência para zonas do Niassa e de Nampula revela que estamos perante uma guerra que pode facilmente escapar ao controlo do Estado e ganhar dinâmica própria, empurrando a região para um cenário de instabilidade prolongada.

A presença das tropas do Ruanda, inicialmente aplaudida como solução imediata para travar o avanço da insurgência, levanta hoje questões importantes para o futuro político e militar de Moçambique. A dependência crescente de um contingente estrangeiro, num país com forças armadas estruturadas há décadas, deveria preocupar qualquer liderança séria. O papel dos ruandeses, apesar de militarmente eficaz, cria a sensação de que o Estado moçambicano está a ceder parte da sua soberania, enquanto sectores internos e externos aproveitam o caos para avançar agendas próprias, muitas vezes incompatíveis com os interesses da população local.

A verdade é dura: o povo continua a se morrer, deslocar-se e perder tudo, enquanto a guerra se torna moeda de troca entre oligarquias políticas, económicas e militares. A paralisia institucional, somada ao silêncio estratégico do poder, alimenta um ambiente de incerteza que abre espaço para que o conflito se regionalize. Se a instabilidade continuar a avançar para o interior do país, ficará mais difícil controlar a entrada de novos actores — legais ou ilegais — que venham disputar recursos, rotas e influência.

Num cenário assim, Moçambique arrisca ser palco de uma guerra prolongada, com ramificações transfronteiriças e consequências imprevisíveis. É urgente recuperar a centralidade do Estado nas operações, clarificar o papel das tropas estrangeiras, reforçar a comunicação pública e, principalmente, devolver ao povo a proteção que lhe foi prometida. A paz em Cabo Delgado não pode ser construída sobre silêncios, dependências ou negociações obscuras. Precisa de transparência, liderança e coragem política.

RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

 

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 24 de Novembro de 2025, na rubrica de opinião.

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