Moçambique e a crise de confiança no Estado
Moçambique vive hoje uma crise silenciosa, mas profunda: a maioria do povo já não acredita nas suas instituições públicas. E quando um país atinge este ponto, algo estrutural se rompeu. Já não se trata apenas de descontentamento — é um afastamento real entre o Estado e o cidadão.
No quotidiano, nas conversas de rua, nos transportes públicos, nos mercados, sente-se essa fractura. O cidadão comum olha para as instituições e não se reconhece nelas. Vê estruturas capturadas, partidarizadas e desprovidas do compromisso republicano que deveria guiá-las. O país mudou; a consciência cívica evoluiu. Mas as instituições ficaram presas a lógicas antigas.
As chamadas “organizações de massas”, que deveriam ser catalisadores de participação social, tornaram-se meras extensões do poder instituído. Não representam comunidades, não reflectem aspirações populares, não defendem causas cidadãs. Servem agendas partidárias. O povo sabe disso — e afasta-se.
A justiça é outro pilar gravemente ferido. Permanece nos textos legais, mas perdeu a autonomia prática. Nos momentos de tensão política, hesita; nos casos sensíveis, recua. O cidadão percebe que há decisões que nunca serão tomadas porque o poder político não permite. E justiça condicionada não inspira respeito — alimenta revolta silenciosa.
No aparelho do Estado, o cenário repete-se. Ministérios partidarizados, instituições dependentes da vontade do Executivo e uma separação de poderes que existe apenas como formalidade constitucional. Não há fiscalização real. Não há contrapoder. O Parlamento, que deveria representar o pluralismo, funciona quase sempre como extensão do governo.
A polícia e as forças armadas enfrentam o mesmo dilema: deveriam ser forças verdadeiramente republicanas, leais à Constituição e à defesa da nação. Porém, demasiadas vezes são empurrados para lógicas políticas. Quando as forças de defesa e segurança perdem neutralidade, perde-se também confiança, estabilidade e autoridade moral.
É deste enredo que nasce a actual crise de confiança.
O povo já não vê o Estado como instrumento de justiça, desenvolvimento e proteção, mas como máquina orientada para preservar interesses de poucos. E quando o Estado governa para alguns, acaba por perder todos.
Moçambique encontra-se num ponto decisivo.
Ou reconstrói a autonomia institucional — devolvendo independência à justiça, profissionalismo à administração pública e neutralidade às forças de defesa — ou continuará preso a uma instabilidade que mina o futuro e sufoca a esperança.
A confiança não se decreta; conquista-se.
E essa reconquista é urgente. Porque um Estado só é forte quando pertence ao povo — e o povo, hoje, sente que o Estado já não lhe pertence.
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 05 de Dezembro de 2025, na rubrica de opinião.
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