Do licenciado ao agente de sobrevivência — RAFAEL NAMBALE

Durante anos, o jovem moçambicano foi educado para acreditar que o estudo era o caminho seguro para uma vida melhor. O diploma surgia como recompensa pelo esforço, pelo sacrifício familiar e pela disciplina pessoal. Mas, para muitos, o percurso não termina numa profissão — termina na rua, na informalidade, na sobrevivência diária.

Não por escolha. Por falta de alternativa.

Quando a formação não encontra destino

Em Moçambique, milhares de jovens com formação universitária ou técnico-profissional não conseguem inserção no mercado de trabalho formal. As empresas são poucas, o Estado não absorve, a economia cresce sem criar empregos qualificados suficientes.

O resultado é um fenómeno cada vez mais visível: licenciados a vender recargas, a fazer Mpesa, M-Kesh e E-Mola, a intermediar pequenos serviços informais. Não porque essas actividades sejam indignas, mas porque representam um desvio brutal entre aquilo para que o jovem foi preparado e aquilo que é obrigado a fazer.

É aqui que nasce a frustração.

Sobrevivência não é realização

Importa dizer com clareza: todo trabalho honesto é digno. O problema não está na actividade em si, mas na sua função social enquanto destino forçado de quem foi formado para outro papel.

Quando a sobrevivência substitui o projecto de vida, algo está errado. O jovem não se sente integrado na economia; sente-se descartado por ela. Trabalha, mas não progride. Esforça-se, mas não constrói futuro.

Isso corrói a autoestima e destrói a noção de mérito.

O desperdício silencioso de capital humano

Cada jovem formado que não utiliza as suas competências representa:

— Investimento público perdido;

— Sacrifício familiar desperdiçado;

— Potencial produtivo anulado.

O país paga duas vezes: primeiro ao formar, depois ao não aproveitar.

E paga ainda um terceiro preço — o da desmotivação colectiva.

Uma sociedade que normaliza o subemprego qualificado está, na prática, a declarar que o conhecimento não tem valor económico real.

A armadilha da informalidade permanente

Para muitos jovens, a informalidade deixa de ser fase transitória e transforma-se em destino definitivo. Não há progressão, não há protecção social, não há aprendizagem estruturada.

O que começa como solução provisória transforma-se em aprisionamento económico.

E o mais grave: o sistema começa a tratar essa situação como normal.

O discurso que não convence mais

Diz-se aos jovens: “sejam resilientes”, “inventem-se”, “empreendam”.

Mas essa retórica ignora um facto essencial: não se empreende no vazio.

Sem políticas claras, sem crédito acessível, sem formação prática, sem acompanhamento técnico, a chamada “iniciativa individual” transforma-se num álibi para a ausência do Estado e da estratégia nacional.

Responsabiliza-se o jovem por falhas que são estruturais.

O risco de uma geração frustrada

Uma juventude que estuda e não colhe resultados não perde apenas rendimento — perde confiança. Nas instituições. No sistema. No próprio país.

Essa frustração não desaparece. Acumula-se.

E sociedades que acumulam frustração juvenil caminham para a instabilidade.

Não por rebeldia gratuita, mas por falta de horizonte.

Conclusão

O percurso do licenciado ao agente de sobrevivência não é sinal de adaptação bem-sucedida. É o retrato de uma promessa quebrada.

Este fenómeno expõe, de forma crua, a distância entre o discurso do desenvolvimento e a realidade vivida pela juventude moçambicana. Uma juventude preparada para contribuir, mas empurrada para sobreviver.

Na série “Juventude moçambicana: promessa adiada”, este é o segundo alerta.

Nos próximos textos, a reflexão aprofunda-se: por que empreender em Moçambique é tão difícil para os jovens? E quem ganha com este modelo que normaliza o desperdício humano?

RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 18 de Dezembro de 2025, na rubrica de opinião.

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