Ainda é possível virar o jogo — RAFAEL NAMBALE

Depois de analisar o diploma que não abre portas, o subemprego qualificado, o falso glamour do empreendedorismo, o desperdício da riqueza nacional e os riscos de uma juventude excluída, impõe-se a pergunta decisiva: ainda é possível virar o jogo?

A resposta honesta é sim.

Mas não com discursos. Com escolhas.

O tempo das meias-medidas acabou

Moçambique já diagnosticou os seus problemas. Falta coragem para os enfrentar de forma estrutural. A juventude não precisa de programas simbólicos nem de promessas recicladas. Precisa de mudança de paradigma.

Virar o jogo exige abandonar a gestão do curto prazo e assumir um projecto nacional que coloque o jovem no centro da produção, não na periferia da sobrevivência.

Educação para produzir, não apenas para certificar

A primeira viragem começa na educação.

É necessário:

— Reformular currículos com foco em competências práticas;

— Ligar ensino técnico, universidades e sectores produtivos;

— Valorizar o saber-fazer tanto quanto o saber-dizer;

— Preparar o jovem para criar valor, não apenas para procurar emprego.

Educação sem utilidade económica é desperdício de talento.

Produção local como prioridade estratégica

Não há inclusão juvenil sem economia produtiva.

Agricultura moderna, turismo comunitário, economia verde, indústria leve e serviços locais devem deixar de ser discurso e passar a ser política central. Cada território tem potencial. Cada jovem pode ser agente económico.

Importar menos e produzir mais é também empregar mais.

Empreendedorismo com ambiente favorável

Empreender só funciona quando há condições.

Isso implica:

— Crédito acessível e orientado;

— Incubação real, não apenas simbólica;

— Fiscalidade progressiva para negócios nascentes;

— Acompanhamento técnico contínuo.

Empreendedorismo não substitui políticas públicas. Ele depende delas.

Juventude como parceira, não como destinatária

O jovem não quer apenas apoio. Quer participar.

Incluir juventude nos processos de decisão local, nos projectos comunitários e na construção de soluções aumenta responsabilidade, pertença e compromisso cívico.

Juventude ouvida constrói.

Juventude ignorada protesta.

Uma escolha de futuro

Virar o jogo não é fácil, mas é possível.

O que não é possível é continuar a adiar.

Cada ano perdido é uma geração mais distante. Cada promessa quebrada é um elo social fragilizado. O custo da inércia é sempre maior do que o custo da reforma.

Conclusão: da promessa adiada à promessa cumprida

A juventude moçambicana não pede privilégios. Pede oportunidades justas. Pede um lugar digno no projecto nacional. Pede que o país cumpra o que prometeu.

A série “Juventude moçambicana: promessa adiada” não termina aqui como lamento, mas como convite à acção. Porque o futuro ainda pode ser escrito — se houver visão, coragem e vontade de incluir quem mais tem a oferecer.

Virar o jogo [ainda] é possível.

Mas o tempo está a contar.

Nota de encerramento da série

Ao longo de seis artigos, esta série analisou a condição da juventude moçambicana num contexto marcado por expectativas não correspondidas e oportunidades limitadas. Partiu-se do desfasamento entre formação e mercado de trabalho, passou-se pelo fenómeno do subemprego qualificado e pelo recurso forçado ao empreendedorismo, e expôs-se o paradoxo de um país rico em recursos que continua a excluir a sua população jovem dos benefícios do crescimento.

A reflexão abordou ainda os riscos sociais decorrentes da frustração juvenil prolongada e a necessidade de encarar a juventude não como problema, mas como factor central de desenvolvimento. O último texto apontou caminhos possíveis, sublinhando que a reversão deste quadro depende de reformas na educação, de uma aposta consistente na produção local e de políticas públicas que integrem efectivamente os jovens na economia.

Juventude moçambicana: promessa adiada” propõe, assim, uma leitura crítica, mas construtiva, de um dos principais desafios do país. Mais do que conclusões definitivas, a série deixa uma constatação: o futuro de Moçambique passa, inevitavelmente, pela forma como decide tratar a sua juventude.

RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 26 de Dezembro de 2025, na rubrica de opinião.

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