Depois do silêncio quem paga o preço da estabilidade? — RAFAEL NAMBALE

A estabilidade tem um custo. Em Moçambique, esse custo raramente aparece nos relatórios oficiais, nas declarações diplomáticas ou nos discursos do poder. Mas ele existe, acumula-se e cobra juros elevados. Em 2026, esse preço será pago sobretudo fora do centro do poder — pela sociedade, pela juventude e pela própria ideia de futuro.

Governar pelo silêncio não é apenas uma técnica de controlo. É uma escolha política com consequências profundas. Quando o silêncio se torna regra, a verdade não desaparece — apenas deixa de circular. E quando a verdade não circula, o erro instala-se, a mediocridade sobe e a responsabilidade evapora.

O primeiro custo da estabilidade silenciosa é a degradação da elite dirigente. Um poder que não é questionado publicamente deixa de se corrigir. Rodeia-se de lealdades tácticas, não de competência. Premia o alinhamento, não a visão. Em 2026, Moçambique continuará a ser governado por estruturas que sobrevivem mais pela disciplina interna do que pela inteligência estratégica. O resultado é um Estado funcional, mas cada vez menos inspirado.

O segundo custo recai sobre os intelectuais, jornalistas, académicos e criadores. Numa sociedade onde falar tem preço, a inteligência aprende a esconder-se. A crítica torna-se metafórica, o pensamento torna-se oblíquo, a coragem torna-se rara. Não por falta de lucidez, mas por excesso de cálculo. Em 2026, Moçambique continuará a produzir pensamento — mas grande parte dele viverá na margem, no subtexto, na ironia, ou fora do país.

O terceiro custo, talvez o mais perigoso, recai sobre a juventude. Uma geração inteira cresce a aprender que o mérito não basta, que a palavra é arriscada e que o espaço público não lhes pertence plenamente. Alguns adaptam-se, outros emigram, outros revoltam-se silenciosamente. Poucos acreditam. Em 2026, a juventude moçambicana não estará apática; estará cansada. E o cansaço é politicamente mais volátil do que a raiva.

É neste contexto que surgem figuras e movimentos que o sistema tenta desqualificar sem compreender. Não são, em si mesmos, projectos de poder acabados. São sinais. Expressões de uma sociedade que já não se reconhece no discurso oficial e que procura novas linguagens para dizer o que antes era apenas sussurrado. O erro do poder é confundir estes sinais com ameaças isoladas, quando eles são sintomas de um desgaste mais profundo: a falência simbólica do silêncio como instrumento de governação.

A estabilidade construída sobre o medo tem outra fragilidade: ela não cria compromisso. Cria obediência temporária. Quando as condições económicas pioram, quando ocorre uma crise inesperada ou quando o próprio sistema comete um erro grave, não há capital moral para amortecer o impacto. Não há paciência social acumulada. Não há confiança de reserva.

Neste 2026, Moçambique continuará a parecer estável. Mas será uma estabilidade cara, mantida à custa da exclusão política, do empobrecimento do debate público e da erosão lenta da confiança colectiva. A pergunta decisiva já não é se o sistema aguenta. É quem paga para que ele aguente.

A história ensina que o silêncio nunca é eterno. Ele pode ser administrado, imposto e normalizado — mas não é sustentável indefinidamente. Quando deixa de funcionar, não falha de forma gradual. Falha de forma abrupta. E, quase sempre, apanha desprevenidos aqueles que mais acreditavam nele.

Depois do silêncio, alguém terá de falar. A questão é se, quando isso acontecer, o país ainda terá instituições fortes, pontes de diálogo e lideranças capazes de transformar a palavra em reconstrução — e não em ruptura.

Porque a verdadeira estabilidade não é a ausência de conflito. É a capacidade de lidar com ele sem medo.

RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 07 de Janeiro de 2026, na rubrica de opinião.

Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Correio da manhã favor ligar para 844101414 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz 

Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais.

Gratos pela preferência

Para ver a revista Prestígio de Janeiro/Fevereiro de 2026 clique este link:

https://shorturl.at/Fzp1i

Siga nos no Facebook e partilhe

https://www.facebook.com/Redactormz

Compartilhe o conhecimento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *