O medo não governa para sempre — RAFAEL NAMBALE
O medo é um instrumento antigo de poder. Funciona, impõe-se, disciplina. Durante algum tempo, parece até eficaz. Mas a história é clara: o medo governa apenas enquanto consegue convencer as pessoas de que não há alternativa. Quando essa crença se rompe, o medo perde autoridade — e o poder que dele depende começa a vacilar.
Em Moçambique, o medo tornou-se uma linguagem política. Não se apresenta sempre de forma explícita; manifesta-se na autocensura, no cálculo permanente das palavras, na prudência excessiva de quem sabe que falar pode ter consequências. Governa-se menos pela persuasão e mais pela antecipação do castigo. Este modelo cria silêncio, não consenso. Cria obediência, não lealdade.
Durante algum tempo, isso basta. Basta para manter a ordem, controlar o espaço público e projectar uma imagem de estabilidade. Mas essa estabilidade é enganadora. Ela não repousa sobre confiança, mas sobre contenção. Não assenta num pacto social renovado, mas numa relação assimétrica entre quem manda e quem evita problemas.
O erro recorrente dos poderes baseados no medo é acreditar que o silêncio significa concordância. Não significa. Significa espera. Espera por uma oportunidade, por uma mudança de contexto, por uma falha no sistema. O silêncio não é vazio; é acumulação.
Quando o medo governa, a verdade não desaparece — desloca-se. Passa a circular em privado, nas margens, na ironia, na arte, na diáspora, nas conversas que não deixam rasto. O Estado continua a falar alto, mas escuta cada vez menos. E um poder que não escuta começa a governar no escuro.
Nenhum sistema político colapsa apenas porque é contestado. Colapsa quando já não é acreditado. Quando as pessoas cumprem por hábito, não por convicção. Quando a autoridade precisa de se afirmar repetidamente porque já não é reconhecida de forma espontânea.
O medo tem outra limitação: não cria futuro. Pode congelar o presente, mas não mobiliza esperança. Não inspira sacrifício voluntário, nem compromisso duradouro. As sociedades movidas apenas pelo medo tornam-se cínicas, defensivas e profundamente desconfiadas — inclusive em relação a si mesmas.
Em Moçambique, o grande desafio já não é manter a ordem. É reconstruir legitimidade. É perceber que governar não é apenas mandar, mas convencer. Não é apenas controlar, mas representar. Quando o poder ignora esta distinção, ganha tempo, mas perde o país.
O medo não governa para sempre porque, mais cedo ou mais tarde, deixa de ser temido. Quando isso acontece, não surge automaticamente uma alternativa melhor. Surge, primeiro, o vazio. E o vazio político é sempre perigoso.
A verdadeira questão, portanto, não é se o medo acabará. É se, quando acabar, haverá instituições, lideranças e maturidade colectiva suficientes para transformar a palavra recuperada em diálogo — e não em confronto destrutivo.
A história concede poucas segundas oportunidades aos países que confundem silêncio com paz.
E nenhuma aos poderes que acreditam que o medo pode substituir a legitimidade
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 08 de Janeiro de 2026, na rubrica de opinião.
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