7:00 H: “Vazio existencial” — STÉLVIO MARTINS

Estava sentado em frente ao computador, os aromas do cigarro de menta, conflituavam com as suas flatulências na atmosfera do seu quarto. Livros abertos sobre a secretária. Descamisado, barba mal aparada e um perfume natural que denunciava a necessidade de uma limpeza corporal. Olhava para a tela do computador, mas parecia não enxergá-la, os seus dedos dançavam como mapicos sobre as teclas, delas saía um som parecido com o das timbilas, só que mais triste, e com menos música, e com menos graça e com menos instrumentos, mais cru e mecânico. Via-se que tentava livrar-se de alguma coisa que lhe perturbava o espirito, debatia-se em silêncio… 

Na tela, lia-se:

“Vazio existencial”

Ponto parágrafo. Ponto continuado. 

Já leste o título, já viste as reticências. Viste os pontos e continuas a ler, a tua expectativa? Não sei! O título do texto é vazio existencial… os dois primeiros parágrafos, deveriam ser suficientes e autoexplicativos.

Uma vez que ainda cá estás, vamos a isto: — está uma manhã cinzenta, no mês de Março ouvem-se da rua, sons incomuns, marrabentas: Oliver Style – xitaporra – um clássico! Músicas como essa marcaram a minha infância e na altura em que foram escritas, os mais velhos apelidaram-nas de “a morte da velha escola”. Cantores como Oliver Style, Ta Basily, Ziqo, Denny OG, entre outros, eram tidos como os carrascos da música moçambicana, mas eram os únicos com aparente capacidade para lutar contra uma invasão musical angolana. Os Ghorowanes, os Kapa Dech, já eram símbolos de nostalgia, sem argumentos para a batalha nova. Ainda dançávamos Lalani, mas estava claro que “É o fim” de Matias Damásio, granjeava mais simpatias.  

Actualmente os sul-africanos dominam o cenário da música nacional, ainda não se vê um adversário à altura… 

Mas não era sobre a música que ia escrever.

Vazios! É isso que acontece quando nada mais tem significado, procuramos atribuir alguma pertinência a qualquer estímulo que nos apareça. Se um mosquito me picasse, se calhar até escrevia um texto sobre os beijos de uma mosquita apaixonada… o título até poderia ser: “a paixão da anófele”, de novo, perdi o foco!

Mas, vazio! – Um dos significados da palavra vazio, comum nos mais diversos dicionários de língua portuguesa, é: – “que não contém nada”. Então, não sei que tipo de magia é que esperas que eu faça para te explicar um vazio existencial. Reticências deveriam ser suficientes afinal elas não dizem nada e ao mesmo tempo dizem tudo… há quem olhe para as reticências como um vazio a preencher, para mim, são uma espécie de um vazio cheio, afinal, há silêncios que falam.

Me parece que estamos a chegar a algum lado.

Mas a ideia era falarmos do vazio e não de reticências, então vamos preencher o vazio.  

Os filósofos na sua infinita vontade de responder a tudo e mais alguma coisa, também reflectiram sobre o vazio, neste caso em concreto, sobre o vazio existencial. Søren Kierkegaard, dizia que “o vazio existencial poderia ser visto como desespero e falta de fé em si mesmo ou em algo maior, resultando em tédio profundo”.

Duas coisas me intrigam nessa definição, primeiro: “poderia ser visto”, ver, como é que se vê um vazio? A ausência, como é possível, ver o nada?

Segundo, “falta de fé em si mesmo ou em algo maior”, é possível ter fé em si mesmo, sem acreditar em algo maior? Afinal em que se baseia a fé? 

Sendo sincero, já não sei muito bem para onde queria levar isto…

Derrotado, deixou-se encostar na cadeira, pegou no cigarro e deu um trago tão longo, parecia tentar preencher alguma coisa no seu interior.

E a mim, a única pergunta que resta é: como pode um indivíduo vazio, preencher…?

STÉLVIO MARTINS *

* Um humilde silencista

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