Quando a política começa a ter medo das pessoas— RAFAEL NAMBALE

A intolerância política instala-se quando o medo substitui o debate — e Moçambique começa a mostrar sinais perigosos dessa erosão democrática.

Há momentos na vida de uma nação em que o problema deixa de ser apenas político.

Passa a ser moral.
Institucional.
Humano.

Moçambique aproxima-se perigosamente desse ponto.

Não porque existam divergências políticas — isso é natural em qualquer democracia. Nem porque existam disputas intensas pelo poder — isso faz parte da dinâmica das sociedades.

O problema começa quando o espaço para divergir começa a encolher.

Quando a crítica passa a gerar medo.
Quando o questionamento começa a ser tratado como afronta.
Quando pensar diferente se transforma, lentamente, num acto de risco.

É nesse momento que a política entra numa zona perigosa: a zona da intolerância.

E a intolerância política raramente surge de forma abrupta.

Ela instala-se lentamente. Primeiro na linguagem. Depois no comportamento.
E, mais tarde, nas estruturas invisíveis do medo.

Começa quando o adversário deixa de ser visto como cidadão e passa a ser tratado como ameaça. Quando o debate perde espaço para a hostilidade.
Quando o contraditório deixa de ser parte da democracia e começa a ser encarado como sabotagem.

E nenhuma sociedade entra nesse processo sem pagar um preço alto.

Ao longo das últimas décadas, Moçambique construiu formalmente um sistema multipartidário. Mas, na prática, a dinâmica política nacional sempre girou em torno de poucos actores com capacidade real de confrontação política.

Durante anos, RENAMO e MDM ocuparam esse espaço simbólico de oposição mais visível ao poder dominante.

Figuras como Afonso Dhlakama e Daviz Simango tornaram-se referências incontornáveis da pluralidade política moçambicana.

Com o desaparecimento dessas lideranças, muitos cidadãos passaram a sentir um enfraquecimento da capacidade de contraposição política organizada.

E quando uma sociedade começa a sentir ausência de equilíbrio político, inevitavelmente surgem novas figuras, novos discursos e novas formas de mobilização.

É precisamente nesse contexto que o crescimento político de Venâncio Mondlane ganha relevância nacional.

Independentemente das simpatias ou divergências políticas que desperta, há um facto difícil de ignorar: a sua capacidade de mobilização popular — sobretudo entre jovens — revelou algo profundo sobre o actual momento moçambicano.

Existe uma geração à procura de representação. Uma geração mais conectada.
Mais consciente. Mais disposta a questionar.

E isso altera inevitavelmente o ambiente político.

Mas há um ponto crucial que precisa de ser compreendido: uma juventude politicamente consciente não deveria ser vista como ameaça nacional.

Deveria ser interpretada como sinal de maturidade democrática.

O verdadeiro perigo para um país não é o cidadão que questiona.

É o cidadão que perde completamente a esperança no sistema.

E é precisamente aqui que surgem as tensões mais sensíveis.

Nos últimos anos, Moçambique tem sido atravessado por denúncias recorrentes de perseguições, intimidações, repressão de manifestações e episódios de violência política que alimentam um clima crescente de medo e desconfiança.

Em vários momentos da história recente do país, casos de assassinatos de figuras políticas, activistas, jornalistas e críticos do sistema deixaram marcas profundas na memória colectiva nacional.

Mais grave ainda do que os episódios isolados é o efeito psicológico acumulado que produzem sobre a sociedade.

As pessoas começam a falar menos. A expor-se menos. A confiar menos.

E pouco a pouco instala-se algo extremamente perigoso: a autocensura.

O medo deixa de precisar de imposição explícita. Passa a viver dentro das pessoas.

Nas conversas interrompidas. Nas opiniões suavizadas. Nos silêncios estratégicos.

E um país onde os cidadãos começam a ter medo das consequências de pensar em voz alta entra lentamente numa erosão democrática silenciosa.

Porque democracia não é apenas votar. É poder falar sem medo.

Discordar sem perseguição. Participar sem intimidação.

Quando essas condições começam a fragilizar-se, mesmo sem ruptura formal das instituições, a democracia perde qualidade.

Tudo continua aparentemente normal. Mas o ambiente muda. A política endurece.
A sociedade polariza-se.
E o debate público transforma-se num campo de suspeita permanente.

Esse talvez seja um dos sinais mais perigosos da intolerância política: ela destrói primeiro a confiança colectiva.

E sem confiança, nenhuma nação permanece estável por muito tempo.

Há ainda outro risco profundamente preocupante: a transformação gradual do adversário político em inimigo absoluto.

Quando isso acontece, o país deixa de procurar convivência democrática.

Passa apenas a administrar hostilidade.

E sociedades que entram nesse estado começam lentamente a justificar excessos, abusos e radicalizações em nome da sobrevivência política.

Mas a história mostra algo importante: nenhum país constrói estabilidade duradoura através do medo.

O medo pode controlar momentaneamente. Pode silenciar temporariamente.
Pode até criar aparência de estabilidade. Mas nunca produz legitimidade profunda.

Porque legitimidade nasce da confiança. Da justiça.
Da percepção de que todos têm espaço dentro da nação — inclusive os que criticam.

Moçambique encontra-se hoje diante de uma escolha delicada.

Pode aprofundar a lógica da suspeita, da intolerância e do medo político.

Ou pode compreender que sociedades fortes não são aquelas onde todos pensam da mesma forma.

São aquelas onde diferenças conseguem coexistir sem destruição mútua.

E talvez esta seja a pergunta mais importante deste momento histórico: queremos um país onde as pessoas tenham medo de falar… ou um país suficientemente forte para conviver com cidadãos conscientes?

Porque no fim, uma nação começa a perder-se não quando surgem opiniões diferentes.

Mas quando pensar diferente se torna perigoso.

RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 25 de Maio de 2026, na rubrica de opinião.

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