Morreu por vergonha — LEANDRO PAUL

Na zona de KaTembe, durante muito tempo, ninguém conseguiu falar daquele assunto sem baixar a voz.

Porque há mortes que chocam.

E há outras que envergonham.

A de Albano S., 72 anos, conseguiu fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

O carpinteiro, homem conhecido por fabricar portas, camas e armários para quase toda a vizinhança, apareceu morto perto de uma mata, numa tarde húmida de Fevereiro.

No início, pensou-se em feitiço. Depois falaram de doença. Mais tarde vieram os boatos.

E, quando os boatos chegaram, trouxeram consigo uma história tão absurda que parecia mentira inventada por bêbados numa barraca.

Mas o bairro acreditou. Porque havia testemunhas.

E porque, segundo se dizia, a própria burra também parecia ter enlouquecido naquela noite.

Albano tinha fama de homem sério. Polígamo. Respeitado.

Apesar da magreza extrema e de uma tosse antiga que lhe sacudia o peito, continuava a trabalhar quase todos os dias.

Tinha mulheres, filhos e uma reputação construída ao longo dos anos.

Mas havia também outra coisa. Uma inquietação escondida.

Nos últimos tempos, os vizinhos reparavam que Albano andava estranho. Mais calado. Mais irritado. Alguns juravam que ele se queixava da falta de “força de homem”.

Outros diziam que uma das esposas o humilhava.

E, como sempre acontece nos bairros, cada pessoa acrescentava um detalhe novo à história.

Naquela tarde, Albano saiu sozinho.

Levava uma corda e um pequeno saco às costas.

Disse a uma das mulheres que ia verificar madeira perto da mata.

Mas não foi isso que fez.

Segundo contaram dois jovens pastores de cabritos, o carpinteiro dirigiu-se para uma zona isolada onde costumavam pastar os animais do senhor Matabele.

Lá encontrou uma burra amarrada.

Os rapazes, escondidos entre o capim alto, começaram a rir ao perceber que Albano se aproximava do animal de maneira estranha.

Pensaram primeiro que estivesse bêbado.

Depois perceberam que não.

O que aconteceu a seguir espalhou-se pelo bairro como fogo em capim seco.

Albano começou a mexer no animal de forma insistente.

Falava sozinho. Acariciava-lhe o lombo. Tentava acalmá-lo como quem prepara alguma coisa proibida.

Os miúdos ficaram paralisados entre o espanto e a curiosidade.

Nunca tinham visto nada parecido.

Um deles quis fugir. O outro mandou ficar.

Espera… vamos ver o que ele vai fazer.

Dizem que a vergonha às vezes mata mais depressa do que a doença.

Talvez tenha sido isso.

Talvez tenha sido apenas desespero.

Porque, segundo os comentários posteriores, Albano acreditava que ninguém o veria ali.

Mas foi visto.

E pior: foi interrompido pela própria burra.

Quando tentou forçar-se sobre o animal, a burra assustou-se violentamente.

Começou a espernear.

Primeiro um coice. Depois outro mais violento.

Albano caiu de lado, ainda tentando agarrar-se à corda.

Mas o animal entrou em pânico.

Os pastores contaram que a burra parecia possuída, zurrando alto enquanto golpeava o homem já caído no chão.

Um dos coices atingiu-lhe o peito.

Outro apanhou-o perto da cabeça.

Depois veio o silêncio.

Os miúdos correram pela estrada abaixo a chamar adultos.

Quando os primeiros vizinhos chegaram, Albano ainda respirava.

Pouco.

Muito pouco.

Tinha os olhos abertos e uma expressão difícil de esquecer. Não parecia dor apenas.

Parecia humilhação.

Tentaram carregá-lo.

Ainda lhe puxaram as calças para cima. Apertaram o cinto.

Mas já era tarde demais. Morreu antes de chegar ao hospital.

Na manhã seguinte, KaTembe inteira já conhecia a história.

As mulheres comentavam em choque.

Os homens fingiam indignação, mas falavam do assunto com uma curiosidade quase doentia.

Houve quem jurasse que aquilo era castigo dos antepassados.

Outros garantiam que Albano estava enfeitiçado.

Dias antes, ele teria consultado um curandeiro local.

E houve ainda quem dissesse que a culpa era da idade e do desespero de um homem que já não conseguia sentir-se homem dentro da própria casa.

As esposas recusavam acreditar.

Isso é mentira de vizinhos invejosos – dizia a mais nova.

Mas nem ela conseguia olhar directamente para as pessoas quando falava.

O dono da burra passou dias sem conseguir levar o animal novamente à mata.

Dizia que o bicho tinha ficado estranho. Como se também tivesse guardado memória daquela tarde.

O enterro foi rápido.

Pouca gente falou. Pouca gente chorou.

Porque o problema da vergonha é esse: Ela seca até a tristeza.

Durante meses, os miúdos da zona continuaram a apontar para a mata sempre que passavam perto.

Chamavam-lhe “o lugar do carpinteiro”.

E alguns juravam ouvir, certas noites, um zurro comprido ecoando no escuro.

Como se a própria burra ainda estivesse a tentar expulsar dali uma memória que ninguém conseguiu esquecer.

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 25 de Maio de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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