O sonho de Lulu— LEANDRO PAUL
Na Malhangalene, muito antes de as pessoas aprenderem a falar de diferenças com naturalidade, havia quem conhecesse Lulu apenas pelo nome que corria de boca em boca.
Uns chamavam-lhe corajoso.
Outros chamavam-lhe estranho.
A maioria limitava-se a apontar o dedo.
Mas quase ninguém conhecia a história que ele carregava dentro do peito.
Quando nasceu, recebeu o nome de Ernesto.
A mãe escolheu-o numa tarde de chuva, convencida de que o filho haveria de crescer forte, casar, ter filhos e seguir o mesmo caminho dos outros homens da família.
Durante alguns anos pareceu que seria assim.
Mas a vida nem sempre pede licença para seguir os planos dos pais.
Ainda criança, Ernesto preferia brincar com as primas do que correr atrás de bolas de trapo com os rapazes do bairro.
Gostava de música.
Gostava de dançar.
Gostava de observar as mulheres a arranjarem o cabelo nas tardes de domingo.
Não sabia explicar porquê.
Sabia apenas que se sentia feliz.
Com o passar dos anos percebeu que era diferente.
E percebeu também que a diferença tem um preço.
Na escola começaram os risos.
Depois vieram os apelidos.
Mais tarde surgiram os insultos.
Alguns colegas empurravam-no nos corredores.
Outros imitavam os seus gestos.
“Bullying” é como hoje se chama.
Havia dias em que regressava a casa em silêncio, fingindo que nada tinha acontecido.
A mãe reparava.
As mães reparam sempre.
– Estás bem? – perguntava.
– Estou.
Mas não estava.
Sentia-se sozinho.
Como se vivesse num país onde ninguém falasse a mesma língua que ele.
Foi nessa altura que nasceu Lulu.
Não a pessoa.
O nome.
Um nome que lhe parecia mais próximo daquilo que sentia ser.
Um nome que o fazia sorrir quando o ouvia.
A mãe estranhou no início.
Depois habituou-se.
Talvez porque amava demasiado o filho para o perder numa guerra que não compreendia.
Ou talvez porque o sofrimento dele fosse maior do que qualquer preconceito.
Quando completou vinte e um anos, Lulu já era conhecido em vários bairros de Maputo.
Não porque procurasse fama.
Mas porque nunca tentou esconder quem era.
Essa honestidade tinha um custo.
Muitas portas fechavam-se.
Alguns empregos desapareciam antes mesmo de começarem.
Certas amizades terminavam sem explicação.
Mas, em compensação, encontrou pessoas que o aceitavam.
Poucas.
Mas verdadeiras.
Numa dessas noites, sentado num muro da Malhangalene, observava os carros passarem enquanto conversava com o amigo Armando.
– Qual é o teu maior sonho? – perguntou o amigo.
Lulu ficou em silêncio.
As luzes dos faróis deslizavam pela avenida como pequenos rios luminosos.
– Casar.
Armando riu-se.
– Só isso?
– Não.
– Então?
Lulu demorou alguns segundos a responder.
– Casar com um homem branco que me ame de verdade.
A resposta pareceu simples.
Mas não era.
Porque, naquele tempo, sonhar uma coisa dessas exigia mais coragem do que muitas pessoas imaginavam.
Armando olhou para ele.
– E depois?
Lulu sorriu.
Um sorriso tímido.
– Depois queria adoptar uma criança.
– Uma criança?
– Sim.
– Porquê?
Lulu olhou para o céu escuro.
– Porque ninguém devia crescer sozinho.
A frase ficou suspensa no ar.
Talvez porque falasse mais dele próprio do que de qualquer filho imaginário.
Nos anos seguintes continuou a trabalhar, a sobreviver, a enfrentar comentários e olhares.
Houve desilusões.
Houve homens que apareceram apenas por interesse.
Outros desapareceram sem aviso.
Alguns prometeram mundos inteiros e não cumpriram sequer uma tarde.
Mesmo assim, Lulu continuou a acreditar.
Acreditar era a sua forma de resistência.
Enquanto muitos esperavam que ele desistisse de si próprio, fazia exactamente o contrário.
Vestia-se como queria.
Falava como queria.
Vivia como conseguia.
Sem pedir desculpas.
Certa vez, um vizinho perguntou-lhe por que insistia tanto em sonhar.
– Porque a vida sem sonhos é apenas espera – respondeu.
O homem ficou sem palavras.
E talvez essa tenha sido uma das poucas vitórias de Lulu.
Não venceu discussões.
Não convenceu toda a gente.
Não mudou o mundo.
Mas recusou-se a deixar que o mundo o mudasse.
Muitos anos depois, quando a Malhangalene já não era a mesma e os tempos começavam lentamente a transformar-se, algumas pessoas ainda se lembravam dele.
Não pelos boatos.
Não pelos comentários.
Nem pelas polémicas.
Lembravam-se daquele jovem que caminhava pelas ruas com uma coragem silenciosa.
Do rapaz que se vestia de mulher.
A coragem de continuar a ser quem era.
E, no fundo, talvez esse tenha sido o verdadeiro sonho de Lulu.
De viver sem medo.
©LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 08 de Junho de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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