O especialista nacional em tudo — SÉRGIO MOSSELA

Há um talento que nunca recebeu um prémio, nunca foi estudado pelas universidades e, curiosamente, cresce mais rápido do que o preço do tomate e do pão: a capacidade de algumas pessoas se tornarem especialistas em absolutamente tudo.

Acordam sem saber onde deixaram as chaves de casa, mas sabem exactamente como resolver a economia mundial, reformar o sistema nacional de saúde, escolher a selecção nacional, gerir uma empresa multinacional, explicar porque o Wi-Fi do vizinho está lento, e justificar que o VAR e árbitros (não) favoreceram a Argentina de Messi no campeonato mundial de futebol.

Vivemos na era em que uma pesquisa de quarenta e cinco segundos transforma qualquer cidadão num consultor internacional. O diploma? Um vídeo de trinta segundos. O mestrado? Um comentário no Face book. O doutoramento? “Recebi esta informação num grupo do WhatsApp” – sustenta!

Os especialistas verdadeiros passam anos a estudar um tema. O especialista moderno passa três minutos a ler o título da notícia e já escreve: “Na verdade, isso está errado…??!!” Talvez!

O mais impressionante é a confiança. Não importa o assunto. Inteligência Artificial? Opina. Geopolítica? Opina. Agricultura? Opina. Física quântica? Também opina. Se amanhã aparecer uma missão para Marte, haverá alguém a comentar: “Eu já tinha avisado que esse foguete devia sair pela Matola”.

As redes sociais democratizaram a opinião, o que é excelente. O problema começou quando algumas pessoas decidiram democratizar também os factos. Agora, cada um tem a sua própria verdade, os seus próprios números e, se necessário, a sua própria ciência.

Há ainda a figura lendária do comentador profissional. Não cria nada, não propõe nada, não constrói nada, mas comenta tudo. Se chove, reclama. Se faz sol, reclama. Se o Governo faz, está mal. Se não faz, está pior. Se alguém apresenta uma solução, responde imediatamente: “Isso já existia”.

No fundo, o país não sofre apenas com a falta de emprego ou de estradas. Sofre também com excesso de “ESPECIALISTAS INSTANTÂNEOS“. Produzimos opiniões em massa e, por vezes, escasseiam a escuta, a curiosidade e a vontade de aprender.

Talvez a verdadeira inovação do nosso tempo não seja a Inteligência Artificial. Talvez seja a inteligência natural de reconhecer que não sabemos tudo.

E, convenhamos, dizer “não sei” continua a ser muito mais elegante do que escrever um tratado sobre um assunto que descobrimos… há cinco minutos.

E tu, tu és especialista em tudo?

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©SÉRGIO MOSSELA *

*  Profissional de Comunicação, Gestor de Projectos e de Desenvolvimento de Estratégias que conectam pessoas, marcas e resultados

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 17 de Julho de 2026, na rubrica OPINIÃO.

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