O verdadeiro fundamento da fé cristã – A placa da igreja não salva ninguém — JOÃO RIBEIRO
Imagine a seguinte cena: uma sala de debate reúne representantes das mais diversas denominações religiosas. O tema central é provocativo: “Qual é a melhor igreja e qual delas detém a verdadeira doutrina da salvação?” Certamente, assistiríamos a um embate exaustivo. Cada participante traria um arsenal de argumentos, textos isolados e tradições históricas para provar que o seu reduto espiritual é o mais fiel ao Criador. Ao final, teríamos um mosaico de certezas conflitantes e, muito provavelmente, pouca ou nenhuma comunhão.
Essa facilidade em defender a “minha denominação” em detrimento da alheia revela um sintoma crônico na religiosidade humana: a tendência de confundir convicções bíblicas com dogmas institucionais. Muitas comunidades, de forma subtil ou explícita, alimentam em seus fiéis a ideia de uma exclusividade espiritual. O resultado disso é trágico: limita-se o convívio com irmãos de outras igrejas e, no pior dos cenários, passa-se a enxergar aquele que migra para outra comunidade cristã como um “perdido” ou um desviado da verdade.
Essa miopia eclesiástica, contudo, não é uma invenção da modernidade. Ela remonta aos primórdios do cristianismo, nascida da própria imaturidade dos discípulos de Jesus. O Evangelho de Marcos relata o momento em que João, tomado de um zelo exclusivista, confessa ao Mestre: “Vimos um homem que expulsava demônios em teu nome e nós lho proibimos, porque não nos seguia”.
A resposta de Jesus ecoa como um correctivo atemporal contra o monopólio da fé: “Não lho proibais (…) porque quem não é contra nós, é por nós”. Com essa declaração, o Cristo deixou claro que o Seu agir e a Sua Igreja não estão confinados ao círculo íntimo dos doze, nem a um único ajuntamento visível.
É preciso resgatar, com coragem e discernimento, a essência do Evangelho: o verdadeiro fundamento da fé cristã é o próprio Cristo, e não uma instituição religiosa. Nenhuma estrutura de tijolos, estatutos humanos possui o poder de outorgar a salvação. O indivíduo é cristão pela presença viva e transformadora de Cristo nele, e não pelo logotipo impresso no boletim dominical que ele carrega no bolso. A Igreja invisível (o verdadeiro Corpo de Cristo) é um organismo vivo, composto por corações regenerados que hoje se assentam em bancos de diferentes denominações.
Significa isso que a igreja local perdeu sua relevância e que devemos caminhar isolados? Absolutamente não. O erro do orgulho denominacional não justifica o erro do isolamento voluntário. A comunidade local continua sendo um instrumento indispensável. Ela é o ambiente da adoração colectiva, o laboratório onde exercitamos o amor prático, a paciência e o perdão, e a estufa que protege o crescimento daqueles que confessam a Jesus como Senhor e Salvador.
O grande desafio do cristão contemporâneo é exercer o discernimento espiritual na escolha de sua comunidade. Uma igreja madura e saudável não é aquela que se autoelogia como a única detentora da verdade, mas sim aquela que assume o papel de cooperadora. É a comunidade que prega as Escrituras com fidelidade, acolhe os feridos e reconhece que o Reino de Deus é infinitamente maior do que as suas próprias paredes.
As denominações mudam suas liturgias, seus estilos musicais e seus costumes, mas o alicerce deve permanecer inabalável. No fim das contas, as igrejas são apenas as diferentes salas de uma mesma e imensa casa paterna. E o que nos une a todos não é a cor das paredes da sala onde estamos, mas o Pai que nos acolheu no pátio da Sua graça.
©JOÃO RIBEIRO
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