Ossufo tudo faz para “sair com o próprio pé”
Ossufo Momade, actual líder da RENAMO, fortemente contestado no seio do partido que dirige, está a evidenciar sinais de controlar as rédeas da organização e tudo a fazer para “sair com o próprio pé”, sem aparentar fazê-lo como consequência das pressões exercidas pelos seus detractores internos.
É assim que mandou anunciar, na sexta-feira da semana passada (28 de Agosto de 2026), a realização, em Maputo, da reunião do Conselho Nacional da Resistência Nacional Moçambicana, a decorrer nos dias 21 e 22 de Outubro.
Marcial Macome, o porta-voz oficial da RENAMO, fez questão de vincar que as actividades da organização continuam a decorrer sob a liderança de Ossufo Momade, cuja acção não depende da “agenda de indivíduos”.
Em conferência de imprensa, Macome sublinhou que um eventual congresso extraordinário, para escolha de um novo líder, poderá acontecer em “tempo oportuno” e ridicularizou os que fazem campanhas públicas para o afastamento de Ossufo Momade. Macome fez uma analogia inusitada: “Se sairmos agora para Xipamanine [o mais famoso mercado de Moçambique] e perguntarmos às pessoas se Daniel Chapo deve ou não abdicar da Presidência da República podem imaginar a resposta, mas nem com o isso amanhã serão convocadas eleições presidenciais ou o actual chefe de Estado deve resignar”.
No entanto, o jornal Redactor apurou, de fontes adequadas, que a sorte de Ossufo Momade deverá ser um dos temas a abordar na reunião do Conselho Nacional e que a reunião magna extraordinária da “perdiz” deverá acontecer “nos próximos meses para o presidente formalizar a sua resignação voluntária”.
Um dos nossos informantes referiu que “o presidente deverá invocar motivos pessoais e/ou de saúde” para fundamentar a sua retirada que, a acontecer nesses termos, será o primeiro dos até agora três líderes da RENAMO, fundada em 1975, a sair da liderança em vida.
André Matadi Matsangaissa, nascido em 18 de Março de 1950, em Manica, Centro de Moçambique e fundador da RENAMO, morreu em combate em 17 de Outubro de 1979, nos arredores da Vila Paiva de Andrade, actual Gorongosa, e o seu sucessor, Afonso Macacho Marceta Dhlakama, também perdeu a vida, oficialmente vítima de doença, nas matas do mesmo distrito, na província central moçambicana de Sofala, em 03 de Maio de 2018.
Aparentemente relaxado, Marcial Macome referiu na conferência de imprensa que o “partido Renamo tem órgãos, o presidente Ossufo é presidente da RENAMO (re)eleito em congresso [em Maio de 2024]. E isto só vai ser desfeito num congresso”. Repetiu que o partido “está feliz” com Ossufo [Momade].
A realização do Conselho Nacional tem sido defendida pelos críticos internos de Ossufo Momade, como o antigo porta-voz de Dhlakama e ex-deputado António Pedro Muchanga, que defende publicamente a saída do líder.
Também alguns dos antigos guerrilheiros têm exigido a saída de Ossufo Momade da liderança da RENAMO, inclusivamente através de ocupação de algumas sedes do partido, incluindo a principal, na cidade de Maputo, como sinal de protesto.
Ossufo Momade, que há muito não aparece em público — em alguns ambientes se alega que tem andado enfermo — tem deixado claro que não pretende recandidatar-se à presidência do partido, todavia, enfatiza que não pode abandonar o cargo sem que se realize o congresso, a fé dos estatutos do partido.
As demarches anunciadas na semana passada por Macome deixam claro que Ossufo Momade, por alguns sectores da RENAMO acusado de “má gestão”, quer aparentar uma “saída controlada” e minimiza as críticas a si dirigidas, por não serem “novas”.
“Isto não começou com Ossufo Momade, nem com o próprio presidente Afonso Dhlakama [1953-2018]”, disse, certa vez, o líder partidário, referindo que a Renamo continuou activa, apesar dos conflitos internos ao longo dos anos.
Natural de Nampula, Norte de Moçambique, o general Ossufo Momade, de 65 anos de idade, acusado de “excessiva frouxidão”, sucedeu ao enérgico e carismático Afonso Dhlakama, natural da província central moçambicana de Sofala.
Ossufo Momade foi candidato presidencial nas eleições gerais de Outubro de 2024, nas quais obteve 6% dos votos, o pior resultado de sempre de um candidato apoiado pela Resistência Nacional Moçambicana, partido que também perdeu nessas eleições o estatuto de líder da oposição.
©Redactor
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 31 de Agosto de 2026.
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