Cinco dias aterradores na enfermaria da cólera — LEANDRO PAUL
(Em memória do jornalista Marcelo Machava)
Tinha começado por sentir dores abdominais, durante a viagem de Xai-Xai para Maputo, num minibus de passageiros.
Ao princípio tentei convencer-me de que passaria. Uma indisposição, talvez. De qualquer coisa que tivesse comido, durante o caminho, vendida pelas mamanas, numa das paragens.
Mas não passou. Pelo contrário, piorou.
Quando cheguei a casa, mal conseguia manter-me de pé. Pouco depois, estava a caminho do Hospital Central de Maputo.
Foi assim que entrei num mundo aterrador, durante cinco dias.
Levaram-me para uma enfermaria isolada do resto do hospital. Numa tenda grande, do tipo militar. À porta, uma advertência parecia estabelecer a fronteira entre dois mundos: Proibida a entrada.
Lá dentro estavam os doentes. Cá fora os familiares, os curiosos e quase toda a gente que não tivesse autorização para atravessar aquela porta.
Entrei, sem fazer a mínima ideia do que me esperava.
Havia camas por todos os lados. Homens e mulheres. Ali não havia género. Apenas doentes.
Havia doentes demasiado fracos para chegarem à casa de banho. Junto das camas colocavam-se baldes para onde escorriam as fezes líquidas.
O cheiro era difícil de descrever. Uma mistura de desinfectante, suor, vómito, fezes e doença.
Sobre nós pendiam inúmeros balões de soro. Eram tantos que, olhando a enfermaria, quase parecia que os frascos faziam parte da decoração daquele lugar.
Só que cada um deles estava ligado a alguém que lutava para não morrer.
Deram-me uma cama. Ou aquilo a que chamavam cama.
O colchão tinha uma abertura por baixo, preparada para permitir que os dejectos caíssem directamente para um recipiente.
Olhei para aquilo. Depois olhei para os outros doentes. Já não havia dúvidas. Eu estava na enfermaria da cólera. Daqui poderia ir directamente para o Lhanguene.
Mesmo no estado em que estava, o meu olhar de jornalista permanecia vivo.
Vi que lá fora, à entrada havia grandes tambores. Sobre eles eram colocados papéis. Perguntei para que serviam.
Disseram-me que ali eram registadas informações sobre os doentes. Nome. Número. Estado. E, quando acontecia, também a morte.
Foi então que compreendi que aqueles papéis tinham uma função terrivelmente simples. Ajudavam a saber quem ainda estava dentro. E quem já tinha saído.
Nem sempre pela porta por onde entrara. Naquela enfermaria, a distância entre uma cama ocupada e uma cama vazia podia ser apenas uma noite.
Fiquei numa sala onde os casos eram considerados graves. A minha cama era a número 010. O número parecia inocente. Mas, naquele lugar, tudo adquiria outro significado.
À minha volta, os doentes vomitavam repetidamente. Outros tinham diarreias constantes. Alguns já quase não conseguiam falar. Os profissionais de saúde corriam de cama em cama.
Soro. Medicamentos. Limpeza. Mais soro. Mais doentes. Mais vómitos. Mais baldes. Mais gente a chegar.
E, de vez em quando, alguém deixava de precisar de qualquer coisa. Nessas alturas, os movimentos mudavam. Não era necessário perguntar. Percebia-se.
Em duas camas vizinhas estava internado um casal. Os dois tinham adoecido. Primeiro morreu o marido. A mulher ficou.
Chamava por ele. Mesmo à noite. Perguntava onde estava. Talvez até soubesse a resposta. Talvez não quisesse aceitá-la.
Pouco tempo depois, também ela morreu. Fiquei a pensar nos filhos daquele casal.
Em poucas horas, uma família podia transformar-se completamente naquele lugar.
A cólera não anunciava a chegada. Não perguntava a idade. Nem a profissão. Não perguntava se alguém tinha filhos. Não esperava despedidas. Apenas entrava. Sem pedir licença. E fazia o seu trabalho.
Mas havia uma coisa que me impressionava quase tanto quanto os doentes: as casas de banho.
Para uma enfermaria onde praticamente todos sofriam de diarreia intensa, eram poucas. E estavam constantemente ocupadas.
Quem conseguisse levantar-se da cama tinha de fazer o percurso depressa. Mas nem todos conseguiam.
Alguns começavam a evacuar pelo caminho. Outros chegavam tarde demais.
O chão molhava-se. Limpava-se. Voltava a sujar-se. E tudo recomeçava.
Era um combate permanente entre a doença, os doentes e o pessoal auxiliar que tentava manter alguma higiene no meio do caos.
Um dia reparei num homem inquieto. Era um recluso, vindo da BO. Tinha sido internado sob vigilância policial.
Mas aparentemente decidiu que a cólera lhe oferecia uma oportunidade que a prisão não lhe dava: a liberdade.
Tentou fugir.
Por alguns momentos, a enfermaria transformou-se num alvoroço. Houve movimentação de guardas armados com AKM.
Vozes. Gritos. Agentes. Doentes a observar. O homem queria escapar das autoridades.
Talvez não tivesse percebido que havia, naquelas circunstâncias, um carcereiro muito mais perigoso dentro do seu próprio corpo: a cólera.
Acabou por ser controlado. Mas não foi o único.
Durante aqueles dias, ouvi histórias de outros presos que teriam conseguido fugir. Alguns talvez preferissem enfrentar a doença na rua a regressar à cadeia.
Nem todos morriam nas camas. Alguns levantavam-se para ir à casa de banho e já não regressavam. Entravam ainda com forças suficientes para caminhar. Depois o corpo cedia.
Alguém dava pela demora. Iam procurar. Encontravam-nos lá dentro. Mortos.
Essa era talvez uma das imagens mais perturbadoras daquele lugar. Uma pessoa podia estar a falar minutos antes. Depois desaparecia atrás de uma porta. E não voltava mais.
A enfermaria ensinava-nos rapidamente uma coisa: ali, estar vivo de manhã não era garantia de chegar vivo à noite.
Entretanto, do lado de fora, os familiares esperavam. Alguns levavam comida. Outros apenas queriam notícias. Mas não podiam entrar.
De vez em quando, alguém aproximava-se da porta e tentava perguntar por um doente. As respostas nem sempre chegavam depressa. Havia demasiada gente. Demasiado trabalho. Demasiada doença. E demasiadas mortes.
Vi familiares esperando durante horas por uma informação. Aquela porta separava mais do que pessoas. De um lado estava a esperança. Do outro estava a resposta.
No total, passei cinco dias naquela enfermaria. Cinco dias a ver entrar doentes. Cinco dias a ouvir gemidos. Cinco dias entre balões de soro, vómitos, diarreias, casas de banho, enfermeiros, médicos, familiares desesperados e camas que, por vezes, amanheciam vazias.
Até que chegou a minha vez de sair.
Recebi alta.
Atravessei aquela porta que, cinco dias antes, tinha atravessado sem saber exactamente o que me esperava.
Do lado de fora, a cidade de Maputo continuava igual a si mesma. Os chapas circulavam. Os cobradores aos gritos. As pessoas a caminhar, umas mais apressadas que outras. As lojas abertas. Os vendedores informais a impingir a sua mercadoria. A cidade fazia a sua vida.
Mas eu já não olhava para ela da mesma maneira.
Durante anos tinha entrado em muitos lugares como jornalista. Tinha feito perguntas. Tinha ouvido histórias. Depois regressava à Redacção e escrevia sobre os sofrimentos dos outros.
Desta vez fora diferente. Não precisei que ninguém me contasse o que acontecia dentro da enfermaria mais famigerada do Hospital Central de Maputo.
Eu tinha dormido lá. Quase tinha morrido lá.
Durante cinco dias não fui o jornalista. Fui a cama número 010.
Um homem deitado entre dezenas de outros, ligado ao soro, esperando que a próxima saída daquela enfermaria fosse pela porta.
E não noutro caminho.
©LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 31 de Agosto de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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