Em quem podemos confiar?— RAFAEL NAMBALE
Há pessoas em quem confiamos sem pensar muito porquê.
Confiamos num amigo a quem contamos uma coisa que não contaríamos a mais ninguém. Confiamos em alguém da família quando precisamos de um conselho. Confiamos no médico quando estamos doentes. Num professor, quando queremos aprender. Num profissional, quando precisamos que alguém faça aquilo que não sabemos fazer.
Na maior parte das vezes, não fazemos uma lista de razões antes de confiar.
Simplesmente confiamos.
Talvez porque conhecemos aquela pessoa. Porque já nos ajudou antes. Porque sentimos que não nos vai enganar. Ou porque, com o tempo, alguma coisa dentro de nós nos disse que podíamos baixar a guarda.
Mas imagine agora uma situação diferente.
Você recebe uma informação sobre um acontecimento que não viu. Não conhece ninguém que esteve lá. Não tem como verificar pessoalmente o que aconteceu.
Alguém precisa de lhe contar.
E você acredita.
Mas porquê?
Porque conhece a pessoa que lhe contou? Porque ela parece segura do que diz? Porque tem autoridade? Porque outras pessoas também acreditam? Porque a informação coincide com aquilo que você já pensava?
Ou porque, simplesmente, não tem outra maneira de saber?
Talvez seja aqui que a confiança começa a ganhar outra dimensão.
Na nossa vida, dependemos constantemente de pessoas que sabem coisas que nós não sabemos. Não podemos estar em todos os lugares, conhecer todas as pessoas, estudar todas as matérias ou verificar pessoalmente tudo aquilo que acontece à nossa volta.
Para conhecer o mundo, precisamos dos outros.
E isso significa que, de alguma maneira, a nossa visão da realidade também depende de quem escolhemos ouvir.
É uma dependência tão presente no nosso quotidiano que quase não damos por ela.
Lemos uma notícia porque alguém a escreveu. Aceitamos um dado porque alguém o apresentou. Acreditamos num relato porque alguém diz que esteve lá. Seguimos uma explicação porque confiamos em quem a está a dar.
E, na maioria das vezes, fazemos bem em confiar.
Uma sociedade não poderia funcionar se cada pessoa tivesse de verificar pessoalmente tudo aquilo que lhe é dito.
Mas é justamente aqui que aparece o problema.
Precisamos de confiar nos outros para conhecer o mundo. Mas precisamos de pensar por nós próprios para não sermos enganados por aqueles em quem confiamos.
Por que confiamos?
Quando confiamos em alguém, raramente fazemos uma investigação.
Não perguntamos quanto tempo aquela pessoa estudou, quantas vezes acertou ou quantas vezes já reconheceu um erro. Na vida comum, confiamos por sinais muito mais simples.
Conhecemos a pessoa.
Já nos ajudou. Fala com segurança. Parece saber do que está a falar.
Ou alguém em quem confiamos confia nela. E isso muitas vezes basta.
O problema é que esses mesmos sinais podem enganar-nos.
Uma pessoa pode falar com muita segurança e estar errada. Pode ter muitos seguidores e não saber mais do que os outros. Pode ocupar um cargo importante e, ainda assim, não dizer a verdade. Pode ser nossa amiga e estar simplesmente mal informada.
E há uma coisa ainda mais delicada: às vezes confiamos numa pessoa porque gostamos daquilo que ela diz.
Talvez seja essa uma das formas mais discretas de perdermos a distância necessária para pensar.
Se alguém confirma aquilo em que já acreditamos, é fácil sentir que encontrámos uma pessoa em quem podemos confiar.
Se alguém nos diz aquilo que não queremos ouvir, podemos começar imediatamente a desconfiar das suas intenções.
Não é difícil perceber como isso acontece.
Na política, por exemplo, podemos considerar credível uma informação porque vem de alguém do nosso lado e suspeitar de uma mentira quando vem do outro.
Numa conversa, podemos aceitar uma história contada por um amigo e duvidar da mesma história quando é contada por alguém de quem não gostamos.
Nas redes sociais, podemos partilhar uma afirmação sem verificar simplesmente porque veio de uma pessoa que acompanhamos há muito tempo.
A confiança, portanto, não depende apenas daquilo que uma pessoa diz.
Também depende, muitas vezes, daquilo que nós já pensamos sobre ela.
E talvez seja aqui que devêssemos fazer uma pausa.
Antes de perguntar se uma pessoa merece a nossa confiança, talvez seja importante perguntar: Por que confio nela?
A resposta pode revelar mais sobre nós do que sobre a própria pessoa.
Confiar sem entregar o pensamento
Talvez este seja um dos desafios do nosso tempo.
Precisamos de especialistas porque não sabemos tudo. Precisamos de jornalistas porque não podemos estar em todos os lugares. Precisamos de professores porque ninguém nasce sabendo. Precisamos de instituições porque uma sociedade não pode funcionar apenas com aquilo que cada cidadão consegue verificar sozinho.
Precisamos dos outros.
Mas precisar dos outros não significa deixar de pensar.
Podemos ouvir um especialista e continuar a fazer perguntas. Podemos confiar num jornalista e, ainda assim, querer saber de onde veio a informação. Podemos respeitar uma instituição e continuar atentos àquilo que faz.
Isso não é falta de confiança. É responsabilidade.
A confiança saudável não nos pede que desliguemos o pensamento.
Pelo contrário: talvez nos peça que pensemos melhor.
Porque uma pessoa pode ser respeitada e estar errada.
Pode ser competente e cometer um erro.
Pode ser nossa amiga e estar mal informada.
Pode falar com convicção e, ainda assim, não estar a dizer a verdade.
E nós também podemos errar ao escolher em quem acreditar.
Talvez por isso não devêssemos perguntar apenas: “Em quem confio?”
Mas também: “Por que confio?”
E, talvez mais importante ainda: “O que me faria mudar de opinião sobre essa pessoa?”
Esta última pergunta é particularmente difícil.
Porque quando colocamos alguém dentro do círculo das nossas pessoas de confiança, tendemos a perdoar-lhe aquilo que talvez não perdoássemos a outra pessoa.
É humano.
Mas é também aí que precisamos de atenção.
A confiança não deve transformar-se numa espécie de autorização para deixar de pensar.
A responsabilidade de escolher em quem acreditamos
Ao longo desta nossa caminhada, começámos por perguntar quem escolhe aquilo que merece a nossa atenção.
Depois perguntámos como se forma aquilo em que acreditamos.
No capítulo anterior, fomos um pouco mais longe e perguntámos como distinguir aquilo em que acreditamos daquilo que é verdadeiro.
Agora chegámos a uma questão inevitável: se não conseguimos verificar tudo por nós próprios, em quem confiamos para nos ajudar a conhecer a realidade?
Não há uma resposta simples.
E talvez seja melhor assim.
Porque o problema não está em confiar. Está em confiar sem perceber por que confiamos.
Uma sociedade saudável precisa de confiança, mas precisa também de pessoas capazes de fazer perguntas.
Precisa de cidadãos que saibam ouvir sem aceitar tudo.
Que saibam discordar sem transformar o outro num inimigo.
Que saibam reconhecer autoridade sem confundi-la com infalibilidade.
E, sobretudo, que sejam capazes de mudar de opinião quando descobrem que estavam errados.
Isso exige humildade.
Uma qualidade que nem sempre associamos ao debate público, mas que talvez seja uma das mais necessárias.
Quase no fim da caminhada
Há quase dois meses que fazemos esta caminhada juntos.
Começámos por olhar para aquilo que prende a nossa atenção. Depois fomos perceber como essa atenção participa na formação das nossas opiniões. Perguntámos em que momento uma crença começa a parecer verdade e tivemos de olhar, com alguma honestidade, para as nossas próprias certezas.
Agora chegámos à confiança.
E talvez tenhamos descoberto que nenhuma destas questões existe isoladamente.
Aquilo a que prestamos atenção influencia aquilo que conhecemos.
Aquilo que conhecemos influencia aquilo em que acreditamos.
Aquilo em que acreditamos influencia as pessoas e as fontes em que confiamos.
E as pessoas e fontes em que confiamos ajudam, por sua vez, a construir a realidade que acreditamos conhecer.
É um círculo.
E cada um de nós está dentro dele.
Talvez seja por isso que esta conversa importa tanto.
Não estamos apenas a discutir notícias, redes sociais, jornalistas, políticos ou instituições.
Estamos a falar da forma como cada um de nós constrói a sua própria compreensão do mundo.
E, no fundo, da responsabilidade que temos nessa construção.
Precisamos de confiar nos outros para conhecer o mundo.
Mas precisamos de pensar por nós próprios para não sermos enganados por aqueles em quem confiamos.
Talvez seja essa uma das formas de amadurecer como pessoas e como sociedade: aprender a ouvir sem entregar a outros o comando do nosso pensamento.
E chegámos aqui quase sem perceber.
Falta-nos apenas uma última pergunta.
Se nenhum de nós consegue conhecer tudo sozinho, se precisamos uns dos outros para compreender o mundo e se, ao mesmo tempo, não podemos entregar a ninguém o direito de pensar por nós…
como podemos aprender a pensar juntos?
Talvez essa seja a pergunta mais difícil de todas.
E é com ela que entraremos no último capítulo desta caminhada.
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 31 de Agosto de 2026, na rubrica denominada O país que somos.
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