Caíram no fundo da latrina quando iam dar início à “função”— LEANDRO PAUL
(Conto baseado em factos verídicos publicados no semanário Fim de Semana, 1997–2007: IMAGEM ILUSTRATIVA)
Judite era uma mulher casada, mãe de quatro filhos, daquelas que durante anos suportam em silêncio aquilo que, contado aos outros, parece impossível de suportar.
O marido tinha outra mulher. Judite sabia.
Não era propriamente um segredo. Durante anos, o homem dividira a vida entre a casa, a esposa e a amante. E não se limitara a encontros ocasionais. Gastava dinheiro com a outra mulher, comprava-lhe coisas e chegara mesmo a montar-lhe uma casa.
Judite sofria. Mas calava-se.
Até ao dia em que decidiu que já chegava.
Não queria abandonar o marido. Também não pensava em confrontar a amante.
Na sua cabeça nasceu uma ideia diferente: se o marido podia traí-la, ela também podia fazer o mesmo.
Era uma vingança. E talvez uma forma de provar a si própria que continuava a ser desejada.
Foi então que apareceu um homem mais novo. Solteiro.
Ele começou a aproximar-se. Judite percebeu rapidamente o interesse.
Ao princípio resistiu. Depois começou a pensar que talvez aquele fosse o homem certo para executar o seu plano.
Não procurava amor. Procurava desforra.
O jovem insistia. Judite recuava.
Ele voltava a insistir. Ela dizia que não.
Ele esperava. Até que, numa dessas conversas, Judite acabou por ceder.
Mas impôs uma condição. Tinha de ser tudo feito em segredo. Ninguém podia saber.
Se o marido descobrisse, as consequências seriam imprevisíveis. O rapaz concordou.
Para ele, bastava que Judite finalmente tivesse dito sim: “Vai ser amanhã”.
O encontro ficou marcado. Seria em casa de Judite.
Mas havia um problema. A mulher tinha filhos. Havia vizinhos.
Havia gente que entrava e saía. E, sobretudo, havia o risco de o marido aparecer.
O jovem passou algum tempo a tentar convencê-la de que encontrariam uma maneira. Judite, porém, vivia assustada.
Quando finalmente chegou o dia, ela tomou precauções.
Esperou pelo fim do mês, altura em que havia recebido o salário, e certificou-se de que o marido não estaria em casa.
O amante apareceu. Judite abriu-lhe a porta.
O coração batia-lhe com força.
Durante anos imaginara aquele momento como uma espécie de resposta a tudo o que o marido lhe fizera.
Agora que o homem estava dentro de casa, porém, começou a sentir-se mal.
Qualquer ruído parecia uma ameaça. Uma voz mais alta na rua fazia-a sobressaltar-se. Passos no quintal pareciam anunciar a chegada do marido.
Não conseguia relaxar. O jovem tentava aproximar-se. Ela afastava-se. Sentavam-se. Levantavam-se.
Conversavam em voz baixa. Nada acontecia.
O rapaz começou a perder a paciência. Não fora até ali para conversar. Judite também sabia disso.
Mas uma coisa era imaginar a vingança. Outra era concretizá-la dentro da casa onde vivia com o marido e os filhos.
O jovem percebeu. Então teve uma ideia.
Havia, nas traseiras do quintal, um lugar onde ninguém os incomodaria.
A latrina. Um lugar “sossegado”
Judite olhou para ele. Não gostou da proposta. Uma latrina?
O rapaz insistiu. Ali ninguém apareceria. Estariam longe das crianças e protegidos dos olhares dos vizinhos.
Judite recusou. Ele voltou a insistir. A mulher acabou por aceitar. Saíram discretamente para o quintal. A noite ajudava.
Chegaram à latrina.
Era uma construção simples, de madeira, erguida sobre uma cova profunda. O cheiro era desagradável.
Judite hesitou novamente.
Mas o jovem já tinha esperado demasiado. Entraram.
O espaço era apertado. Mal cabiam os dois.
A madeira sob os pés parecia velha, mas nenhum deles prestou grande atenção. Tinham outras preocupações.
Judite ainda estava nervosa. O rapaz tentou sossegá-la.
Falou-lhe. Aproximou-se. Abraçou-a.
Tentou convencê-la de que não havia perigo. O marido estava longe. Os filhos não os veriam. Os vizinhos não desconfiariam. Ali estavam finalmente sozinhos.
Depois de meses de insistência, o momento pelo qual o jovem esperara estava prestes a chegar. Judite respirou fundo. Tentou esquecer o marido. Tentou esquecer os filhos. Tentou esquecer onde estava.
Os dois começaram a preparar-se para dar início à “função”.
Foi então que ouviram um ruído.
– Crac.
Judite parou. O rapaz também.
Olharam para baixo. Por um segundo, nada aconteceu.
Depois veio outro estalido. A madeira cedeu. O imprevisível aconteceu.
Judite sentiu o chão desaparecer debaixo dos pés. Nem sequer teve tempo de gritar.
A estrutura partiu-se e os dois precipitaram-se para dentro da cova.
Caíram. No fundo da latrina.
Judite não conseguia acreditar.
A vingança que planeara durante meses terminara, antes mesmo de começar, no lugar mais improvável e humilhante que poderia imaginar.
Tentou levantar-se. Não conseguiu. O jovem também se debatia.
A cova era funda.
As paredes dificultavam qualquer tentativa de saída. Quanto mais mexiam os braços e as pernas, maior era o desespero.
Judite começou a pensar no marido.
E agora?
Se gritasse, os vizinhos apareceriam. Os filhos saberiam. Toda a gente perguntaria o que fazia ela dentro de uma latrina, àquela hora, acompanhada por um homem que não era o marido.
Mas se não gritasse, como sairia dali? O amante tentou encontrar apoio nas paredes. Escorregou.
Tentou outra vez. Judite agarrava-se a ele. Por momentos, os dois tiveram medo de se afundar ainda mais.
A situação que começara como uma aventura clandestina transformara-se numa luta para conseguirem sair daquele buraco.
Foi o rapaz quem acabou por encontrar forças.
Apoiou-se onde conseguiu. Subiu. Escorregou. Voltou a tentar. Judite ajudava como podia.
Finalmente, conseguiu alcançar a parte superior. Saiu.
Mas Judite continuava lá em baixo. O jovem podia ter fugido.
Não fugiu.
Deitou-se junto à abertura, estendeu os braços e tentou puxá-la. Uma vez. Duas.
Judite escorregava. Ele voltou a agarrá-la. Até que conseguiu retirá-la.
Os dois ficaram no quintal, sujos, exaustos e em silêncio.
Olharam um para o outro. Não havia mais desejo. Nem poderia haver.
Não havia vingança. Não havia “função”. Só havia vergonha. Nunca mais tentou vingar-se.
Judite preferia nem recordar como conseguiu limpar-se e recompor-se depois daquela noite.
Mas uma coisa ficou decidida. A vingança terminara ali.
O jovem continuou a aparecer na sua vida. Encontravam-se ocasionalmente na rua. Falavam.
Mas Judite nunca mais quis repetir a experiência.
A mulher que passara anos a sofrer com as traições do marido continuava magoada. Só que a tentativa de responder da mesma maneira produzira um resultado que jamais imaginara.
O marido, aparentemente, nunca soube.
Talvez tenha continuado com a amante.
Talvez Judite tenha continuado a guardar a sua dor.
Mas havia agora um segredo que ela tinha ainda mais razões para esconder.
Sempre que se lembrava daquela noite, vinha-lhe à memória o quintal, a velha estrutura de madeira, o estalido sob os pés e a queda inesperada.
Quisera vingar-se do marido traindo-o. Não chegou sequer a conseguir.
Quando ela e o amante iam finalmente dar início à “função”, a latrina encarregou-se de pôr fim ao encontro antes que ele começasse.
©LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 21 de Setembro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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