“Não existe Deus”: A decepção disfarçada em descrença — JOÃO RIBEIRO
Recordo-me de ter partilhado, nas minhas redes sociais e nas páginas e plataformas digitais do Jornal Redactor, uma reflexão sobre a distância entre a realidade circunstancial à nossa volta e aquilo em que escolhemos crer. Na ocasião, convidei os leitores a desenvolverem a sensibilidade de observar o mundo sem permitir que as dores ou incertezas do quotidiano abalassem a sua fé.
Recentemente, a vida colocou à prova o ensino que partilhei. Durante a minha rotina matinal de exercícios, enquanto corria cerca de cico quilómetros ao lado de um colega, ele declarou categoricamente: “Deus não existe”.
A afirmação não me surpreendeu pela novidade, mas pela dor velada que trazia. As razões apresentadas por ele revelaram um padrão comum a tantas outras conversas semelhantes: na maioria das vezes, a negação de Deus não nasce de um vazio conceptual, mas de uma profunda decepção. Trata-se do desapontamento de quem esperava um Deus moldado às expectativas humanas e encontrou um mundo marcado por imperfeições.
O argumento central do meu companheiro de corrida assentava no clássico dilema da existência do mal: como conceber um Deus onisciente, onipotente e infinitamente bom num mundo sacudido por sofrimentos, injustiças e tragédias? Na sua visão, a presença da dor é a prova irrefutável da ausência do Criador.
Contudo, este raciocínio revela um dos maiores equívocos do pensamento contemporâneo — tanto entre os que crêem como entre os que duvidam: o desconhecimento da verdadeira essência de Deus. Frequentemente, reduz-se o Divino a uma entidade utilitária, uma espécie de resolvedor de problemas cuja existência só é validada se o mundo funcionar segundo a nossa conveniência.
No livro do Êxodo, quando Moisés indaga sobre quem O envia, o Senhor responde simplesmente: “EU SOU O QUE SOU”. Esta é a revelação mais profunda da Sua identidade. Deus não existe para preencher as nossas lacunas conceptuais nem para satisfazer vontades egoístas; Ele subsiste por Si mesmo. A Sua existência não depende da nossa aprovação, da nossa fé ou da nossa compreensão.
Por outro lado, não podemos isentar o ser humano da sua própria responsabilidade. Atribuir a Deus a culpa pelas tragédias humanas é esquecer que grande parte do sofrimento resulta do livre-arbítrio e do egoísmo do próprio homem. Ter um Deus Onipotente não nos desobriga do dever moral e da responsabilidade cívica sobre o mundo que construímos.
Historicamente, a razão e a intelectualidade têm sido usadas como escudos para negar o Transcendente. Não obstante, o percurso de grandes mentes como Santo Agostinho demonstra que o conhecimento humano, por mais vasto que seja, encontra o seu limite na incapacidade de explicar o mistério da vida sem uma causa soberana. Agostinho, na sua vasta bagagem intelectual, procurou justificações para negar a fé, até ser alcançado pela graça salvadora e reconhecer a verdade.
Como nos lembra a literatura sapiencial dos Salmos, a negação precipitada da transcendência é uma forma de insensatez que fecha as portas à experiência do sagrado. Existem inúmeras evidências da existência do Criador na ordem da natureza, na consciência moral e na própria busca humana por sentido, mas nenhuma evidência será suficiente para quem decidiu fazer do racionalismo inflexível o seu único alicerce.
Diante disto, sobressai a urgência de dar continuidade à Grande Comissão. É preciso anunciar com sabedoria, empatia e clareza que Deus revelou o Seu amor e a Sua presença de forma definitiva no Seu Filho, oferecendo redenção e esperança a uma humanidade ferida.
Deus não existe porque precisamos que Ele exista, nem deixa de existir quando as nossas expectativas falham. Deus existe simplesmente porque Ele É. E é nessa certeza inabalável que a verdadeira fé encontra o seu repouso.
©JOÃO RIBEIRO *
* Ministro cristão com formação em Teologia, Exposição Bíblica e Administração de Ministérios e Famílias
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