A desnutrição silenciosa da mente — JOÃO RIBEIRO
Vivemos um tempo em que uma das patologias mais devastadoras da sociedade moderna é encarada com naturalidade e passividade: a atrofia intelectual. Ao contrário da desnutrição corporal, que estampa sinais físicos imediatos e visíveis, a desnutrição da mente ocorre de forma silenciosa. Por não provocar dor física, ela mergulha os indivíduos em um estado de pleno torpor e complacência no que tange ao cultivo da leitura.
O fenômeno é generalizado. Tornou-se comum ouvir pessoas declararem, sem o menor constrangimento, que “não gostam de ler”. O mais estarrecedor é perceber que nem mesmo as instituições de ensino escapam a essa realidade. Muitos estudantes limitam-se ao cumprimento burocrático de tarefas para obter aprovação, desprovidos de um genuíno desejo de buscar o saber. Trata-se da substituição da busca pelo conhecimento por uma mera formalidade acadêmica.
É preciso questionar essa postura. Desenvolver o hábito da leitura pode não ser um processo simples, mas isso jamais deveria servir de justificativa para normalizá-lo. Na vida, poucas coisas essenciais são feitas exclusivamente por prazer ou conforto; na maioria das vezes, agimos por necessidade. Cuidar da mente é uma dessas necessidades primordiais. O gosto pela leitura deve ser compreendido como uma habilidade exigente de se adquirir, mas perfeitamente alcançável.
Falo a partir da minha própria jornada. Abracei a leitura movido pelo desejo de expandir meu repertório e aprimorar minha capacidade de expressão. Não foi um começo fácil, como em qualquer disciplina nova. Contudo, a persistência diária transformou o esforço inicial em um hábito indispensável, ao ponto de não conceber um único dia sem folhear ao menos cinco páginas de um bom livro.
Em contrapartida, observamos uma sociedade que devota um entusiasmo desmedido a frases curtas, entretenimento raso e conteúdos efémeros na internet, enquanto negligencia o pensamento estruturado. Certa vez, em conversa com uma conhecida, ouvi o relato de que ela sofria de lapsos frequentes de memória e, por isso, concluía não valer a pena ler, afinal, “esqueceria tudo”. Curiosamente, essa mesma pessoa dedicava horas diárias ao uso passivo do celular, sem um propósito definido. Este não é um caso isolado. O mesmo padrão se repete até entre crentes que alegam falta de tempo para ler as Escrituras, quando, na verdade, o que falta é a vontade disciplinada de o fazer.
As consequências dessa resignação já são visíveis: formamos gerações com uma capacidade analítica limitada, impotentes diante de problemas triviais que exigiriam apenas um raciocínio lógico elementar. Da mesma forma que ninguém aceita passivamente a perda de apetite físico sem procurar assistência médica, não podemos encarar a aversão à leitura como um traço de personalidade inofensivo. É preciso calcular o custo social e individual desse analfabetismo funcional voluntário.
A verdadeira formação do indivíduo exige um desenvolvimento harmonioso. O ser humano em sua expressão mais plena é aquele que busca o equilíbrio rigoroso entre a saúde do corpo, o rigor da mente e a elevação do espírito. Negligenciar a mente através do abandono da leitura é abdicar do que nos torna plenamente conscientes e livres.
©JOÃO RIBEIRO *
* Ministro cristão com formação em Teologia, Exposição Bíblica e Administração de Ministérios e Famílias
Para ver a revista Prestígio de Setembro/Outubro de 2026 clique AQUI