Em vez de água pôs gasolina na panela— LEANDRO PAUL
(Conto baseado em factos verídicos publicados no semanário Fim de Semana; imagem ilustrativa)
Naquela noite, ninguém imaginava que uma simples panela pudesse transformar uma cerimónia familiar numa corrida contra a morte.
E muito menos Angelina.
Aos 52 anos, Angelina M. conhecia bem os movimentos de uma cozinha. Era doméstica e passara boa parte da vida entre panelas, tachos, fogões e refeições preparadas para a família. Naquela noite, porém, bastaram alguns segundos e uma troca aparentemente impossível para que tudo se transformasse em fogo.
Era sábado.
Angelina tinha saído da sua casa, no bairro do Zimpeto, arredores da cidade de Maputo, e deslocara-se a Marracuene. A família reunira-se para uma cerimónia em memória do pai, cujo falecimento completava cinco anos.
Era uma daquelas ocasiões em que os familiares chegam de vários lados. Uns trazem comida. Outros, bebidas. Há quem cuide das crianças, quem converse no quintal e quem se encarregue da cozinha.
Angelina estava entre estes últimos.
Antes de sair de casa comprara vários produtos necessários para a cerimónia. Entre eles estava gasolina.
Colocou-a num recipiente de plástico. E foi aí que, sem saber, começou a preparar-se a tragédia.
O recipiente era semelhante aos bidões utilizados para guardar água potável.
Ninguém lhe prestou atenção. Ninguém imaginou que aquela semelhança pudesse representar perigo.
Durante a cerimónia, Angelina começou a preparar uma refeição. A panela estava ao lume e a água já aquecia quando reparou que era pouca.
Precisava de acrescentar mais.
Saiu da cozinha e dirigiu-se ao quarto onde estavam guardados os recipientes.
Havia vários. Angelina aproximou-se deles com a naturalidade de quem repetira aquele gesto centenas de vezes ao longo da vida.
Pegou num bidão. Não cheirou. Não confirmou.
Não se lembrou, naquele exacto instante, de que entre os recipientes de água havia um que guardava gasolina.
Voltou para a cozinha. A panela continuava ao lume.
Angelina levantou o bidão e começou a despejar o líquido.
O que aconteceu a seguir foi tão rápido que, durante muito tempo, ela própria teria dificuldade em explicar.
Assim que o líquido entrou em contacto com a panela quente, ouviu-se uma explosão.
BUM!
Uma língua de fogo ergueu-se diante dela.
Angelina recuou instintivamente. Mas já era tarde.
As chamas espalharam-se pela cozinha numa fracção de segundos. O fogo atingiu o recipiente que segurava e subiu-lhe pelo braço.
Angelina gritou. Largou o bidão.

Foi pior.
O recipiente em chamas caiu e o fogo encontrou novos caminhos pelo chão da cozinha. Tudo parecia arder ao mesmo tempo.
Angelina olhou para o braço. Estava em chamas.
Tentou apagá-lo enquanto corria. A dor era insuportável.
Não teve tempo para pensar na panela. Não teve tempo para pensar na comida. Nem sequer percebeu imediatamente o que tinha acontecido.
Só queria sair dali.
Correu para fora da cozinha.
As chamas ficaram para trás, alimentadas pelo combustível derramado.
Angelina precipitou-se pelas escadas. Tropeçou. Caiu.
Levantou-se como pôde. E continuou a gritar por socorro.
Foi então que uma vizinha ouviu os pedidos de socorro. A mulher correu para a casa onde decorria a cerimónia.
Na sala, os familiares continuavam distraídos, conversando. Ouvindo música com o som alto. A cerimónia juntara muita gente e o ruído das vozes e da música ajudara a esconder os primeiros sinais do desastre.
A vizinha entrou alarmada.
– Fogo! Está a arder!
As conversas pararam.
Durante alguns segundos ninguém percebeu.
Depois veio a correria.
Uns foram para a cozinha. Outros procuraram água. Alguém correu para acudir Angelina.
Quando perceberam a dimensão do que estava a acontecer, o fogo já ameaçava alastrar para outras partes da casa.
A gasolina tinha transformado um acidente doméstico numa emergência.
Foi uma luta desesperada.
Água. Panos. Gritos.
Ordens dadas ao mesmo tempo. Gente entrando e saindo.
Até que, finalmente, conseguiram dominar as chamas.
A casa escapara por pouco. Angelina também.
Mas o seu braço ficou profundamente queimado.
Só mais tarde, quando o susto começou a dar lugar às perguntas, alguém quis saber o que realmente acontecera.
Angelina tentou reconstruir os últimos minutos.
A panela.
A pouca água.
O quarto.
Os bidões.
O recipiente que pegara.
Então percebeu.
Não tinha deitado água na panela.
Tinha deitado gasolina.
A descoberta parecia-lhe absurda.
Ela própria comprara aquela gasolina. Ela própria a colocara no recipiente. Sabia perfeitamente que estava ali.
Como podia ter-se enganado?
A pergunta começou a atormentá-la.
Angelina repetia mentalmente o momento em que entrara no quarto. Via os recipientes. Via a sua mão a escolher um deles. Via-se a regressar à cozinha.
Por que razão pegara precisamente no bidão da gasolina?
Não encontrava explicação.
Para quem estava à sua volta, podia ter sido apenas uma distracção. Os recipientes eram semelhantes e, no meio de uma cerimónia familiar, com várias tarefas para cumprir e muita gente em casa, um engano era possível.
Mas Angelina não aceitava facilmente essa explicação.
Quanto mais pensava, mais estranho lhe parecia.
Tinha sido ela a comprar a gasolina.
Sabia onde estava.
Sabia que não era água.
Ainda assim, fora exactamente aquele recipiente que as suas mãos tinham escolhido.
E então surgiu outra explicação.
Uma explicação que não vinha da cozinha.
Nem da química.
Nem da distracção.
Para Angelina, alguém podia ter querido vê-la longe deste mundo.
Feitiço!
A palavra começou a ganhar força na sua cabeça.
Talvez, pensava ela, não tivesse sido um simples engano. Talvez alguma força tivesse confundido os seus sentidos no momento exacto em que precisava de água.
Não sabia quem poderia desejar-lhe mal.
Nem apresentava provas.
Mas tinha uma certeza pessoal: aquilo não lhe parecia normal.
Enquanto Angelina procurava respostas no invisível, a cozinha apresentava uma explicação muito mais concreta.
Um recipiente de gasolina confundido com um recipiente de água.
Uma panela quente.
Uma chama.
E alguns segundos.
Nada mais fora necessário.
O fogo quase consumira a casa inteira.
Se as chamas tivessem alcançado outras divisões antes de a família perceber o que estava a acontecer, a cerimónia em memória de um morto poderia ter terminado com novas tragédias.
A vizinha que ouviu os gritos acabou por ser decisiva.
Foi ela quem correu para avisar os familiares.
Foi o alerta que desencadeou a reacção.
Quando tudo terminou, restaram o cheiro a queimado, a cozinha marcada pelo fogo e Angelina ferida.
A mulher que entrara ali apenas para preparar uma refeição saíra com um dos braços profundamente queimado.
A panela ficou.
A casa ficou.
A família ficou.
E Angelina também ficou.
Mas ficou igualmente uma pergunta que ela continuava sem conseguir afastar.
Como pôde uma mulher que sabia perfeitamente onde estava a gasolina pegar justamente naquele recipiente e despejá-lo numa panela ao lume?
Para os outros, talvez tivesse sido distracção.
Para Angelina Massinga, não.
Ela sobreviveu ao fogo.
Mas nunca acreditou que tivesse sido apenas um acidente.
©LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 06 de Outubro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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