Fazer do atraso uma normalidade — EUGÉNIO MULHOVO
Em Moçambique, o atraso parece ter-se transformado numa prática socialmente tolerada, quase numa cultura. Muitos organizadores de eventos sentem-se obrigados a indicar, nos convites, horários fictícios — frequentemente com uma, duas ou mesmo até seis horas de antecedência — relativamente ao momento real de início, apenas para se adaptarem a essa tendência.
Consultas médicas, funerais, casamentos, exames académicos, cerimónias religiosas, encontros de negócios, jogos desportivos e outros eventos começam, não raras vezes, muito depois da hora previamente marcada. Em alguns casos, chegam mesmo a fracassar devido à ausência ou à chegada tardia dos participantes. As consequências não são insignificantes. Na área da saúde, por exemplo, o atraso de uma cirurgia pode comprometer a vida de um paciente.
Há uma espécie de dualidade de responsabilidade: por um lado, os organizadores falham no cumprimento da hora de início; por outro, os convidados não respeitam a hora de chegada. Esta realidade leva ambas as partes a uma situação de desonestidade em relação ao tempo: os organizadores anunciam uma hora que não pretendem cumprir e os participantes assumem que o evento só começará muito mais tarde.
O atraso é um mal que desgasta relações pessoais e profissionais. Prejudica a confiança, compromete a produtividade, cria frustrações e transmite uma ideia de desrespeito pelo tempo alheio. Os seus efeitos fazem-se sentir no trabalho, na vida conjugal, nos negócios, nas instituições públicas e nas mais diversas actividades do quotidiano.
É necessária uma consciência colectiva sobre a importância de cumprir tanto a hora de chegada como a hora de início de qualquer evento. O mesmo sentido de responsabilidade exigido no local de trabalho deve ser observado em cerimónias, reuniões familiares, actividades religiosas, compromissos académicos e encontros sociais.
Atrasar não deve ser encarado como moda, estilo ou traço inevitável da nossa convivência. É um comportamento nocivo que precisa de ser combatido na consciência de cada cidadão, em nome de uma sociedade mais organizada, eficiente e respeitadora.
Aparentemente, está em vias de extinção, em Moçambique, a geração samoriana que se guiava pelo lema atribuído ao fundador da Nação moçambicana, Samora Moisés Machel, segundo o qual “a pontualidade é a sentinela da disciplina”.
©EUGÉNIO MULHOVO *
*Ministro religioso
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 07 de Outubro de 2026, na rubrica de opinião denominada Consciência pública.
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