Maioria dos jornalistas africanos depauperados e ameaçados

Seis em cada dez jornalistas consultados num inquérito em África afirmam que os rendimentos da profissão não cobrem as necessidades básicas, revelou um relatório da Federação de Jornalistas Africanos (FAJ), que alerta para o impacto da precariedade laboral e das ameaças na liberdade de imprensa.

 O estudo, divulgado na quinta-feira (29 Out. 2026) e baseado em respostas de 1.586 jornalistas de 45 países, indica que 84% dos inquiridos praticam autocensura, com frequência ou ocasionalmente, enquanto 69% disseram ter evitado determinadas matérias devido a ameaças.

“As conclusões deste relatório revelam uma profissão em profunda crise. Espera-se que os jornalistas informem o público enquanto lutam para sobreviver”, afirmou Omar Faruk Osman, presidente da FAJ, num comunicado.

 Segundo o levantamento, 61% dos participantes disseram que os rendimentos provenientes do jornalismo não satisfazem as suas necessidades básicas e apenas 4% consideraram que os salários cobrem adequadamente os custos essenciais. Cerca de 58% relataram atrasos nos pagamentos, 62% trabalhavam sem contratos escritos e 71% não dispunham de protecção social.

 A insegurança também marcou as respostas: 65% dos inquiridos sofreram ameaças ou intimidação relacionadas com o trabalho nos últimos três anos e 55% disseram sentir-se raramente ou nunca seguros no exercício da profissão. Apenas 17% afirmaram sentir-se sempre seguros.

 O relatório cita ainda dados da Federação Internacional de Jornalistas segundo os quais pelo menos 18 jornalistas e outros profissionais dos meios de comunicação social foram mortos em África em 2025 devido ao seu trabalho.

 “A pressão sobre o jornalismo não se limita a ataques físicos. Manifesta-se também através de intimidação jurídica, censura e barreiras à informação”, afirmou Osman.

Entre as violações sofridas, os participantes referiram interferência política, em 68% dos casos, obstáculos ao acesso à informação, em 61%, censura, em 57%, e intimidação jurídica, em 49%. Quase dois terços classificaram a liberdade de imprensa nos respectivos países como restrita ou altamente restrita.

As ameaças estendem-se ao espaço digital. Cerca de 36% disseram ter sofrido assédio online relacionado com o trabalho e 26% relataram vigilância digital, embora 63% não tivessem recebido formação em segurança digital. Mais de três quartos consideraram que as mulheres jornalistas enfrentam riscos adicionais, incluindo assédio sexual, violência de género online e discriminação no trabalho.

O levantamento aponta também sinais de desgaste profissional: 44% relataram esgotamento frequente e 47% já tinham considerado abandonar o jornalismo. A maioria, 72%, afirmou que os locais de trabalho não ofereciam apoio psicológico ou aconselhamento.

 Intitulado “Jornalismo sob cerco: condições de trabalho péssimas e o declínio da liberdade de imprensa em África”, o relatório resulta de um inquérito realizado pela FAJ com apoio do Programa Multidoadores da UNESCO sobre Liberdade de Expressão e Segurança dos Jornalistas. Os participantes abrangem as cinco regiões do continente, mas o comunicado não detalha o método de selecção da amostra nem apresenta resultados por país.

 A FAJ apelou aos governos e às empresas de comunicação social para garantirem salários justos, contratos escritos, protecção social e segurança no trabalho, além de investigarem os ataques e reformarem leis utilizadas para intimidar ou criminalizar jornalistas

Em Moçambique, o MISA, organização de defesa da liberdade de imprensa, registou 15 violações contra o exercício da actividade jornalística em 2025, contra 32 no ano anterior, incluindo seis agressões físicas.

Apesar da redução, a organização advertiu que a gravidade dos casos mantém um ambiente hostil ao jornalismo, marcado por intimidação, restrições à cobertura e impunidade nos crimes contra profissionais da comunicação social.

©Redactor

Para ver a revista Prestígio de Julho/Agosto de 2026 clique AQUI

Compartilhe o conhecimento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *