Questionado destino de USD 27 milhões para saneamento em Chimoio
Alguns munícipes da cidade de Chimoio questionam o atraso no arranque do Projecto de Saneamento Urbano Inclusivo, avaliado em 27 milhões de dólares norte-americanos e financiado pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), mais de um ano após o seu lançamento oficial.
O projecto, lançado a 2 de Abril de 2025, prevê a construção e reabilitação de infra-estruturas de saneamento na capital provincial de Manica, onde vivem mais de 372 mil habitantes. A iniciativa é executada pelo Ministério das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, através da Administração de Infra-Estruturas de Água e Saneamento (AIAS).
À taxa de câmbio de 63,90 meticais por dólar norte-americano, o financiamento corresponde a cerca de 1,725 mil milhões de meticais. Desse montante, 25 milhões de dólares norte-americanos, equivalentes a aproximadamente 1,597 mil milhões de meticais, destinam-se à implementação das obras. Os restantes dois milhões de dólares norte-americanos, cerca de 127,8 milhões de meticais, deverão financiar estudos para a expansão do sistema de abastecimento de água da cidade.
Na cerimónia de lançamento, representantes do Governo e do BAD defenderam que o projecto contribuiria para reforçar a resiliência climática de Chimoio, melhorar a saúde pública e elevar a qualidade de vida dos munícipes.

Contudo, apesar de as obras terem sido anunciadas para o segundo semestre de 2026, residentes ouvidos pelo Redactor afirmam não ter visto sinais de início dos trabalhos, nem informações regulares sobre o ponto de situação do financiamento.
“Ouvi, no ano passado, que Chimoio teria muitas obras para melhorar a cidade. Fiquei feliz, mas até agora não vejo nada e já nem se fala do assunto. Quando chove muito, a água entra no nosso bairro e danifica as casas de matope”, disse Augusto Therene, de 64 anos, residente no Bairro Centro Hípico.
No bairro 25 de Junho, Tinashe Paulo, de 43 anos, recordou as promessas feitas pelas autoridades municipais para melhorar a organização urbana e travar a erosão.
“Disseram várias vezes que viria um projecto para deixar a cidade mais bonita e organizada e acabar com a erosão. Mas já passaram quase dois anos e só vemos desenhos nas estradas e praças. Não pode terminar o mandato sem cumprir o que prometeu”, afirmou.
Outros residentes receiam que o atraso comprometa a execução do projecto dentro do prazo previsto, que termina em 2028. Há também quem considere que a demora esteja a condicionar intervenções municipais em zonas que poderão ser abrangidas pelas futuras obras.
“Acho que o município está à espera deste projecto porque o dinheiro não é da autarquia. Talvez tenham receio de investir em zonas críticas e, depois, o projecto destruir o que foi feito. Mas este dinheiro é para Chimoio e não pode ficar parado enquanto continuamos a sofrer”, disse Titos Fazenda, residente no Bairro 7 de Abril.
Para alguns jovens e trabalhadores informais, o início das obras representa igualmente uma expectativa de emprego temporário.

“Se o projecto avançar, pelo menos alguns de nós poderão conseguir trabalho nas obras. Precisamos de biscates. Espero que este dinheiro não termine nos bolsos de pessoas que estão longe daqui”, lamentou Gimo Famba, vendedor ambulante no Mercado Feira.
Contactado, o edil de Chimoio, João Ferreira, afastou qualquer responsabilidade directa do município na gestão dos fundos e disse que a autarquia aguarda pelo início das obras.
“O município não recebeu nenhum valor deste financiamento. Estamos à espera que o projecto inicie a qualquer momento. Era para ter começado há anos, mas ainda não iniciou”, afirmou.
Segundo Ferreira, a demora levou o município a avançar com alguns trabalhos, incluindo intervenções na Avenida do Trabalho, procurando evitar que futuras obras prejudiquem investimentos já realizados.
“Não podemos continuar a atrasar a cidade. Estamos a fazer algumas intervenções e, quando o projecto chegar, vamos procurar que seja implementado nos passeios e não no alcatrão. Penso que o dinheiro não entra no município; deverá sair directamente do BAD para o empreiteiro. A nossa função será fiscalizar a obra e, com a aprovação municipal, o banco poderá efectuar os pagamentos”, explicou o edil.
Por seu turno o director provincial das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos em Manica, Flávio Félix Manuel, disse que a estrutura provincial não está envolvida directamente na implementação do projecto, remetendo esclarecimentos para as entidades centrais, em Maputo.
“Os directamente envolvidos são o município de Chimoio e o Ministério das Obras Públicas. Ao nível provincial, não estamos envolvidos em nenhuma acção relacionada com esse projecto”, declarou.
O plano prevê a construção de 76 quilómetros de redes de esgoto e interceptores, duas estações de bombagem, uma Estação de Tratamento de Águas Residuais baseada em soluções naturais, uma unidade de tratamento de lamas fecais, 30 instalações sanitárias públicas, casas de banho melhoradas para famílias vulneráveis e campanhas de educação para higiene e saneamento.
Dados disponíveis indicam que, até Dezembro de 2025, tinham sido desembolsados cerca de 44,7 milhões de meticais, o equivalente a 3,5% do valor global do financiamento. Permaneciam por desembolsar cerca de 96,5%, estimados em 1,65 mil milhões de meticais.
O atraso ocorre num contexto de graves desafios de saneamento em Chimoio. Em 2023, quando o BAD aprovou o projecto, pouco mais de 100 mil habitantes tinham acesso a saneamento adequado, enquanto cerca de 300 mil dependiam de latrinas tradicionais ou recorriam à defecação ao ar livre.
Com o prazo de execução fixado para 2028, persistem dúvidas sobre a capacidade de concluir todas as infra-estruturas previstas dentro do calendário. Também permanece por esclarecer o motivo da reduzida execução financeira e o calendário efectivo para o início das obras.
©ONÓRIO ENCARNAÇÃO, Correspondente em Manica (Texto e fotos)
Este artigo intitulado foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 02 de Outubro de 2026.
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