John Kachamila: A queda de um pedaço do Niassa
Estas linhas já vão tarde, infelizmente, porque o título original seria “Carta a John Kachamila”, para o dono lê-las. Infelizmente, estão a ser publicadas a título póstumo. Talvez assim Deus quis. Mas, tenho a certeza que ele irá ler esta carta, a partir do outro mundo para onde agora adianta. O celestial.
Estamos a falar de um homem multifacetado. Para nós, os do Niassa, John Kachamila era o exemplo do próprio Niassa. Homem humilde, diria até ao exagero (?), muito educado e solidário. Kachamila parecia o próprio Niassa, mais outra coisa.
Quando quis escrevê-lo a carta, era para parabenizá-lo por tudo quanto fazia pela nossa província, em forma de elogio público. Mas, não fui a tempo. Os seus últimos dias não facilitaram o contacto que eu desejava estabelecer, outra vez. Na tenda da FACIM, em Maputo, encontrei, um dia, a sua mulher, Georgia, a promover o seu novo projecto turístico, que tem acento tónico no monumental hotel inaugurado em Metangula. E eu dizia-lhe: Estou a escrever uma carta ao tio Kachamila, que é para ser lida por muitas pessoas. É um orgulho imenso, como do Niassa.
Aliás, o tio Kachamila num desses dias dizia-me: – O grande contributo que podes fazer para o teu Niassa é estudares e te formares.
Nunca me esquecí deste conselho. Estávamos em Washington. Num encontro ocasional. Ele em serviço e eu em mais uma acção formativa. E, Kachamila, que falava isso por experiência própria, foi além das palavras. Perde a vida com um estatuto de um dos grandes investidores da sua província (eu é que o graduo). Levou para casa diversas iniciativas e apoios para o desenvolvimento. Já na reforma, conseguiu reunir cerca de 10 milhões de dólares norte-americanos e foi realizar um sonho, lá na terra, implantando um complexo hoteleiro de que Niassa hoje se orgulha, com requinte internacional. Um hotel de cinco estrelas, ali juntinho ao Lago Niassa, na vila sede distrital de Metangula. Ou seja, o primeiro hotel com esta graduação na história da província do Niassa.
Kachamila nunca acreditou que o Niassa fosse o tal “desconhecido”, quase a alinhar com os Massukos, que sacodem esse orvalho injusto no corpo dos niassenses. Enquanto se agigantou o mito de que investir em casa, sobretudo no Niassa, era um risco, e, tradicionalmente, perigoso, Kachamila levou grandes projectos para lá mesmo em casa. Desde Lichinga até ao Lago Niassa. Um grande orgulho do Niassa que este homem que hoje nos deixa espalhou.

A ter que imaginar um balanço, eu estaria a mencionar muitos jovens que Kachamila empurrou para a escola, as bolsas de estudo que ele angariou e os distribuiu por muitos jovens do Niassa e de outras províncias, os conselhos e apoio que deu, independentemente de serem pessoas da sua família ou não, etc.
Difícil será ver aquele niassense simples, chamado John Kachamila, sem ambição material, sem roupa de marca, que primeiro dava de comer aos outros enquanto quem tinha fome era ele. Aquele que puxava a sua malinha pessoalmente quando viajava, recusando-se a ajuda. Como naquele dia que quis ajudá-lo, no aeroporto de Maputo, a caminho de Lichinga, ali no embarque normal, e ele disse: – Não te preocupes. Muito obrigado. Assim eu me sinto equilibrado.
Portanto, não é fácil falar de um homem com estas qualidades humanas. Os niassenses têm, de ora em diante, a difícil tarefa de ver o Niassa como ele via, sobretudo, como implementar a sua filosofia: – “Não serão os de fora a desenvolver o Niassa, mas sim nós próprios do Niassa”.
Hoje, cai um dos pedaços desse Niassa. À família enlutada, eu apresento os meus pêsames.
Até lá, Dr. Kachamila. Descanse em paz!
JAFAR BUANA
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