Envenenado por não ter mais utilidade — LEANDRO PAUL

Durante anos, Fanuel acordava antes do sol.

Nas minas da África do Sul, aprendera que o dia não começa quando se quer, mas quando o corpo aguenta. Descia à terra ainda escura, respirava poeira, empurrava o cansaço para dentro e pensava sempre na mesma coisa: é só mais um dia.

Pensava na mulher, nos filhos, na casa grande que um dia iria construir longe dali, numa terra onde o chão fosse seu e o silêncio não tivesse preço.

Quando regressou definitivamente, já não era o mesmo homem que partira.

Trazia dinheiro suficiente para levantar paredes de alvenaria, comprar chapa nova para o telhado e garantir algum respeito na aldeia. Mas trazia também uma tosse persistente, um corpo enfraquecido e um olhar cansado de quem já viu o fundo do mundo.

Esperava descanso. Esperava gratidão. Esperava, talvez, ser recebido como alguém que tinha cumprido a sua parte.

Paulina não viu nada disso em Fanuel.

A casa que ele construíra parecia-lhe pequena demais para os sonhos que ainda tinha. Via o marido sentado longas horas, a recuperar forças que não voltavam, enquanto ela continuava a trabalhar na machamba, a cuidar dos filhos, a fazer contas que nunca fechavam.

Fanuel acreditava que o casamento era isso: um tempo para ir, outro para ficar. Um tempo para carregar, outro para ser carregado.

Paulina via outra coisa. Via um homem parado. Via um futuro travado. Via alguém que já não voltaria às minas e que, por isso, deixara de ser útil.

As palavras começaram a mudar de tom. Primeiro foram silêncios. Depois respostas curtas. Por fim, frases ditas sem raiva, mas com dureza suficiente para ferir.

Já não serves para nada; nem homem já não és — disse-lhe um dia, enquanto mexia a panela.

Fanuel ouviu como quem ouve um diagnóstico. Não respondeu. Nunca fora homem de confrontos. Pensou nos anos passados longe, nos perigos enfrentados, nos amigos enterrados do outro lado da fronteira. Pensou que talvez fosse assim mesmo. Que o valor de um homem acabasse quando o corpo deixa de produzir.

Começou a depender dela para comer. Para sair de casa. Para tomar banho. Mas não reclamava. Tinha medo de ser mais um peso.

Naquela manhã, o cheiro da comida estava diferente. Soube-lhe a amargo. Fanuel percebeu, mas não comentou. Sempre comera o que lhe punham à frente. Não queria incomodar. Não queria provocar mais silêncio.

Ao longo do dia, a dor começou devagar. Primeiro um desconforto, depois um aperto, depois um incêndio dentro do corpo. Tentou levantar-se, mas as pernas não responderam. Chamou por Paulina. Não houve resposta.

À noite, ela saiu de casa levando alguma roupa e o pouco que achou necessário. Não se despediu. Talvez porque já se tivesse despedido muito antes, em pensamento.

Fanuel morreu, sozinho, sem compreender. Talvez sem tempo para compreender. Talvez ainda acreditando que tudo se resolveria no dia seguinte.

Os vizinhos disseram depois que Paulina fugira. Que fora para Inhambane. Que tinha outro homem à espera. Que Fanuel nunca quisera problemas para não desfazer o casamento.

Na aldeia, o caso foi comentado durante algum tempo. Depois, como tudo, perdeu novidade. Ficou apenas uma frase, repetida em voz baixa, como se fosse explicação suficiente para tudo:

Ele já não servia para nada.

Ninguém perguntou quando é que um homem deixa de servir.

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 26 de Janeiro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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