Fazia sexo à distância no chapa — LEANDRO PAUL

Ninguém sabia o nome dele. Apenas um murmúrio atravessava as paragens de chapa [designação dada a furgoneta que faz o serviço de transportes semi-colectivos de passageiros em Moçambique] de Xipamanine, Museu, Baixa e Benfica:

— O Clarinho está outra vez na linha… cuidado!

Chamavam-lhe Clarinho não pelo tom da pele, mas pelo ar desbotado, quase transparente, de quem passara demasiados anos a caminhar sem sombra, sem destino, sem casa conhecida. Diziam que teria cinquenta e muitos anos, embora a idade parecesse ter desistido de o seguir. As rugas não denunciavam anos, denunciavam histórias mal contadas.

A lenda começou numa paragem poeirenta de Xipamanine, numa tarde abafada, quando três mulheres apareceram inquietas, nervosas, a fazer sinais com as mãos, como quem varre maus espíritos. A história espalhou-se como fogo em capim seco: um homem estranho que, sem tocar em ninguém, causava perturbações, confusão emocional e uma sensação de ataque invisível.

Ninguém explicava bem o fenómeno. Era sempre contado em voz baixa, como se o próprio medo tivesse ouvidos. Algumas mulheres diziam que, quando o homem subia para o chapa, sentiam um desconforto súbito, um aperto estranho no peito, uma invasão inexplicável nas coxas, como se alguém lhes roubasse o equilíbrio interior.

É bruxaria — diziam.

É doença da alma.

É um espírito mau que viaja com ele.

Outras juravam que bastava cuspir discretamente na capulana [pano icónico tradicional de uso quase obrigatório por mulheres em Moçambique] e dar um nó rápido no tecido para bloquear o efeito. Era o tipo de superstição que só nasce onde a ciência falha e o medo manda.

O Clarinho surgia sempre do nada, entrando silenciosamente para os chapas como se não pisasse o chão. Nunca falava. Olhava pela janela, mas o olhar parecia atravessar o vidro e continuar para sítio nenhum.

Sentava-se ao lado de quem calhasse, sem pedir licença. E, aos poucos, o ambiente mudava. Os passageiros trocavam olhares desconfortáveis. O cobrador franzia o sobrolho. O motorista acelerava como quem foge de um presságio.

Num bairro de Benfica, uma senhora idosa foi a primeira a apontar o dedo:

Este homem não é deste mundo.

Disse que o vira anos antes em Inhambane, numa feira popular, onde outras mulheres se queixavam de sensações semelhantes. Para muitas, era o mesmo indivíduo que, como uma sombra errante, atravessava cidades à procura de algo que ninguém sabia nomear.

As descrições coincidiam sempre: um homem baixo, magro, silencioso, com uma força estranha no olhar. A mesma roupa gasta, o mesmo passo lento.

Ele não toca em ninguém, mas mexe com o ar — contou uma vendedeira do Mercado Central.

Quando ele aparece, nem os pássaros pousam perto.

A Polícia tentou encontrá-lo. Por duas vezes recolheram testemunhos, mas ninguém conseguia apontar-lhe casa, família ou paradeiro. Aparecia e desaparecia como poeira levantada pelo vento dos chapas.

As mulheres de Xipamanine, organizadas numa espécie de conselho informal, definiram uma estratégia:

Quando o Clarinho entrar, saímos todas. A vida é mais importante que o destino.

E assim, de paragem em paragem, o fenómeno tornou-se medo colectivo, crónica do imaginário suburbano de Maputo. Um episódio que se contava nas bichas, nos mercados, nos quintais ao cair da tarde.

— Ele não é feiticeiro. É pior. É alguém que perdeu a alma e agora vagueia à procura dela.

Era essa a versão que corria entre as senhoras que vendiam mandioca ao pé da estrada.

O Clarinho nunca foi detido. Nunca foi identificado. Era um vulto que surgia quando queria e desaparecia sem deixar rasto.

Talvez ainda ande por aí, sentado em algum chapa, olhando pela janela as vidas alheias, carregando no rosto o enigma de quem carrega um peso maior do que a própria cidade pode suportar.

E as mulheres, até hoje, não esquecem o conselho passado de boca-em-boca:

Se o Clarinho entrar no chapa, não esperem pelo destino. Cuspam e torçam bem o nó da capulana!

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 15 de Dezembro de 2025, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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