Manuel António abandonado no hospital— LEANDRO PAUL

Pensavam que ele ia morrer. Não disseram isso em voz alta, mas pensaram. Pensavam os médicos quando olhavam os exames. Pensavam as enfermeiras quando lhe ajeitavam os lençóis. Pensava até o silêncio, aquele silêncio pesado que se instala nos corredores quando a esperança começa a sair sem fazer barulho.

Manuel António — também chamado por Antoninho, de 9 anos de idade — estava deitado numa cama grande demais para o seu corpo pequeno. Respirava com dificuldade, como se cada inspiração tivesse de ser negociada. Os olhos, fundos, seguiam os movimentos do tecto, das lâmpadas, das sombras que passavam apressadas.

Ninguém sabia ao certo de onde vinha.

Sabiam apenas que chegara ali com os pais, que falavam pouco, olhavam muito e pareciam estar sempre com medo, não da doença mas do futuro.

É pneumonia — disseram.

Depois disseram outras palavras mais complicadas.

Depois deixaram de dizer.

A mãe foi a primeira a desaparecer. Disseram que tinha ido buscar roupa. Depois disseram que tinha ido resolver um problema. O problema cresceu e ganhou forma de ausência. Não voltou.

O pai ainda ficou alguns dias. Sentava-se numa cadeira ao lado da cama, calado, olhando para o chão como quem pede perdão por coisas que não sabe nomear. Um dia levantou-se, disse que ia lá fora apanhar ar. Esfumou-se.

Manuel António é que ficou.

Nos primeiros dias, as enfermeiras perguntavam pelos pais. Depois deixaram de perguntar. Aprenderam cedo que, naquele hospital, algumas perguntas não têm resposta e só servem para cansar.

Chamavam-lhe pelo nome com cuidado, como se o nome fosse a única coisa que ainda lhe pertencia.

Manuel António

Ele abria os olhos devagar. Às vezes sorria. Um sorriso pequeno, deslocado, como se não tivesse aprendido ainda quando é que se deve sorrir.

Não chorava muito. Talvez porque já estivesse cansado demais para chorar.

Com o tempo, a morte começou a afastar-se. Primeiro devagar. Depois com mais convicção. O corpo, frágil, insistia em ficar. Os pulmões reagiram. A febre cedeu. A vida, teimosa, resolveu não sair.

Foi aí que perceberam que o maior problema não era a doença.

E agora? — alguém perguntou.

Agora Manuel António estava vivo.

Mas estava sozinho.

Nenhum nome nos registos ajudava. Nenhuma morada confirmada. Nenhum parente que respondesse. A Polícia veio, anotou, prometeu averiguar. Foi-se embora.

Algumas igrejas apareceram. Trouxeram brinquedos. Fizeram orações para os pais voltarem. Trouxeram comida e também palavras boas, daquelas que não resolvem, mas aliviam.

Manuel António ganhou um carrinho de plástico. Brincava com ele na cama, empurrando-o devagar sobre o lençol, como se fosse uma estrada segura.

À noite, quando o hospital ficava mais calmo, chamava baixinho:

Mamã…

Ninguém respondia.

Os dias passaram. As semanas também. O hospital continuava a funcionar. Entravam crianças. Saíam crianças. Algumas voltavam para casa. Outras não.

Manuel António continuava ali, melhorando aos poucos, mas sem destino.

Não podemos mandá-lo embora — disseram.

Também não podemos ficar com ele para sempre.

Alguém que disse ser o avô apareceu uma vez. Mas nada sabia dos pais do neto.  Ficou pouco tempo. Olhou para o Antoninho com cansaço antigo. Disse que ia voltar. Voltou ao seu próprio desaparecimento.

Assim, Manuel António cresceu um pouco dentro do hospital. Aprendeu os horários das refeições. Reconhecia passos. Sabia quando vinha a injecção e quando vinha a brincadeira improvisada. Gostava da hora de comer gelatina. Gostava das de limão.

A início, pensavam que ele ia morrer. Mas Manuel António resolveu viver.

Agora, deitado numa cama da ortopedia, a única ala com poucos pacientes, com o corpo ainda frágil e a história já pesada demais, espera. Não por alta. Não por cura.

Espera por alguém.

Porque, no fim, a doença foi tratada.

O abandono é que ficou internado.

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 09 de Fevereiro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Redactorfavor ligar para 82/84/87 3085360 ou 844101414 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz 

Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais ou pagando pelo paypal associado ao refinaldo@gmail.com.

Gratos pela preferência

Para ver a revista Prestígio de Janeiro/Fevereiro de 2026 clique este link:

https://shorturl.at/Fzp1i

Siga nos no Facebook e partilhe

https://www.facebook.com/Redactormz

Compartilhe o conhecimento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *