Meu vizinho dormia com as minhas duas mulheres — LEANDRO PAUL
Eu sou Américo, agente da Polícia. Uso farda, sigo ordens, obedeço ao relógio. Mas nada disso me salvou. Agora falo do fundo da cela, porque o silêncio pesa mais que as grades.
Tudo começou com sinais pequenos: o corpo cansado, a cabeça pesada, a comida a azedar. As minhas duas mulheres, a Rosária e a Mira, diziam que era trabalho a mais, mas eu sabia que havia algo estranho. O meu vizinho, Basílio, olhava demasiado para dentro do meu quintal, como quem mede terreno alheio e isso me preocupava. Ainda não sabia porquê.
Numa noite, voltei do serviço e juro ter visto duas sombras a contornar a esquina. Quando entrei, as minhas mulheres estavam em casa, fingindo que estava tudo bem. Mas o cheiro do medo estava lá.
A cada dia que passava, o peso no ar crescia. O cão gemia em silêncio, a porta abria sozinha, e eu sentia passos dentro do quarto. Levantei-me de repente e vi uma sombra desaparecer no muro do vizinho. A chama do candeeiro dele apagava sempre que eu me aproximava.
Perguntei às minhas mulheres. A Mira confessou que, às vezes, sentia um frio a deitar-se ao lado dela. A Rosária pediu que eu me calasse, que não pensasse nisso. Mas como não pensar, se a própria casa me dizia que já não era minha?
Na esquadra, ninguém acreditava. Eu cumpria rondas, entregava relatórios, mas a cabeça já não me obedecia. Ao regressar, via sempre o Basílio parado, encostado, com aquele sorriso que me feria mais do que qualquer insulto.
Um dia, notei uma mancha estranha no corpo da Mira. Perguntei. Ela disse que era do balde da água. A Rosária desviou o olhar. Foi então que decidi. A farda ensina que há leis. Mas a vida ensina que há limites. E, no meu caso, já os tinha excedido.
Nessa noite, levei a arma para casa. O bairro dormia. Bati à porta do Basílio. Ele abriu, tranquilamente, como quem já sabia. Sorriu. Fez sinal para eu entrar. O corredor cheirava a cigarro. Lá dentro, uma sombra moveu-se por trás da cortina. O meu coração bateu como um tambor.
Não pensei mais. O dedo encontrou o gatilho. O estampido cortou o silêncio. O corpo dele tombou para trás, os olhos presos num espanto cansado. O cão calou-se. A chama do candeeiro voltou a acender.
Saí devagar. Passei pelo quintal. As minhas mulheres estavam imóveis, como se fossem retratos de meio corpo. Entreguei a arma na esquadra e registei a ocorrência: disparei contra o vizinho. Motivo? Enfeitiçou-me e dormiu com as minhas duas mulheres.
Agora escrevo isto entre paredes húmidas. Perguntam se me arrependo. Digo que sim, e digo que não. Sim, porque o sangue pesa. Não, porque eu já estava morto antes de disparar. O Basílio levou a minha paz, e eu apenas lhe devolvi o vazio.
Na cela, ainda ouço passos no corredor. Ainda vejo o candeeiro a apagar e a acender sozinho. Talvez o feitiço não tivesse acabado. Talvez nunca acabe.
*Jornalista, jurista e docente universitário
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 01 de Setembro de 2025, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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