O encantador de serpentes — LEANDRO PAUL
O bairro Liberdade, perto da cidade de Maputo, sempre fora um lugar tranquilo, onde as vidas corriam calmas entre a plantação de mandioca, couve e outras hortícolas e as conversas à sombra das árvores.
Mas a tranquilidade tinha acabado no dia em que Américo começou a atrair as atenções dos vizinhos. De um simples camponês, ele transformara-se em algo que ninguém ousava nomear. Para alguns, ele era apenas um excêntrico mas, para outros, um feiticeiro perigoso. Mas todos, sem excepção, falavam dele em sussurro nos mercados, nas barracas e nas casas.
Américo, com os seus 59 anos, tornara-se uma lenda viva. Diziam que mantinha cobras como quem guarda segredos. Elas deslizavam pela casa, pelo corpo, como se fizessem parte de si. O seu olhar, outrora calmo e afectuoso, adquirira uma frieza que congelava até os mais corajosos.
A sua esposa, Ester, já não era a mesma mulher que sorria, outrora, nos mercados ou na igreja, de mãos dadas com o marido. Anos de convivência com o que ela acreditava ser o mal, tinham-na envelhecido. As rugas no seu rosto não eram apenas marcas do tempo, mas cicatrizes da alma.
Certa noite, o silêncio foi rasgado por um grito. Um grito seco, agudo, que percorreu as ruas do bairro como uma rajada de vento cortante. Era a voz de Ester. Ela tinha acabado de acordar com uma cobra enrolada à volta do seu pescoço. Era fina, mas o suficiente para a sufocar lentamente.
Com um impulso desesperado, arrancou o réptil e atirou-o para o chão. O olhar de Américo, parado à porta do quarto, era inabalável. Ele não se mexeu, não disse uma palavra sequer, nem fez um mínimo gesto para ajudá-la. Apenas observava.
Foi naquele momento que Ester compreendeu a verdade: o homem que uma vez amara já não existia. Ele era agora uma casca vazia, preenchida por algo que ela não conseguia entender.
Daí em diante, os rumores começaram a crescer. Três vizinhos morreram, de maneiras tão estranhas quanto rápidas. Um atropelamento numa estrada deserta, uma doença misteriosa que devorava a carne, um suicídio por enforcamento numa trave de madeira. Todos eles, de alguma forma, tinham cruzado o caminho de Américo. Por razões diferentes, todos tinham discutido com ele. O medo transformou-se em raiva, e a raiva em sede de justiça.
O bairro uniu-se, como nunca, decidido a erradicar o mal que se alastrava como uma doença invisível. Numa tarde quente, os vizinhos avançaram em massa até à casa de Américo. Armados com ramos, pedras e a coragem que o desespero traz, invadiram a casa.
Ester já não vivia nessa casa, pois se tinha mudado para a Matola, para a residência dos seus pais, mas o eco das suas palavras ainda pairava sobre todos: “Ele tentou matar-me. Tentou matar os nossos filhos”. Ninguém sabia se eram exageros de uma mulher ferida ou a verdade nua e crua. Mas, naquele momento, não havia espaço para dúvidas.
Os médicos tradicionais, convocados pela multidão enraivecida, foram os primeiros a entrar. Percorreram a casa, analisando cada canto, até que, num dos quartos, descobriram o inevitável: as serpentes. Muitas serpentes. Verdes, pretas, castanhas. Não eram simples cobras; eram criaturas esguias e traiçoeiras, como se fossem uma extensão do próprio Américo.
O ar tornou-se pesado, quase irrespirável, enquanto queimavam tudo o que encontravam. Mas quando o fogo começou a consumir os feitiços, algo inesperado aconteceu.
O corpo de Américo, que até então se mantivera imóvel no centro da sala, começou a convulsionar. O seu pescoço inchou rapidamente, como se outra cobra estivesse a emergir de dentro dele, sufocando-o.
A multidão, antes ousada, recuou em pânico. O homem que controlava as serpentes estava agora a ser engolido pelo seu próprio feitiço. Ele caiu de joelhos, sem emitir um som, com os olhos vazios e o corpo a tremer.
O fogo continuava a consumir os objectos malditos, e com eles, parecia que a própria alma de Américo se esvaía. Quando o último pedaço de madeira queimou, ele desabou, como uma árvore velha cortada pela raiz.
O bairro assistiu em silêncio, horrorizado e fascinado. Aquele que havia sido o seu vizinho durante três décadas, já não era mais do que um vulto, um corpo sem vida, que agora se tornava em cinzas.
Mesmo assim, havia quem não acreditasse que ele tivesse morrido, de verdade. Alguns insistiam em dizer que o seu corpo apenas havia sido expulso para uma terra distante, algures na província de Gaza, de onde ele era natural. Outros, mais supersticiosos, acreditam que o seu espírito ainda vaga pela terra, à procura de vingança. O que ninguém duvida é que ele deixou um rastro de destruição para trás.
Ester e os filhos ficaram sem nada. A casa, o pomar, o terreno, tudo foi confiscado pelos vizinhos, como forma de exorcizar o mal que acreditavam ter ali vivido.
Mas Ester está inconformada: “Os meus filhos não têm culpa, ele têm direito à casa do pai, ao terreno, ao pomar que não foi vandalizado pelos vizinhos”, dizia ela.
Mas o bairro, agora livre das sombras, pouco se importava. Américo era uma memória distante, mas o medo que ele incutiu ainda persistia. Ninguém estava disposto a tocar nas ruínas da sua vida, como se fossem amaldiçoadas.
O tempo passou, mas as noites no bairro Liberdade continuaram a ser preenchidas por murmúrios. Alguns juram ouvir, de vez em quando, o sussurro das serpentes na calada da noite. Outros dizem que, se prestarem bastante atenção, podem ver uma figura escura à distância, observando, à espera. E assim, a lenda de Américo, o encantador de serpentes, vive.
Ester, por sua vez, continua a sua vida solitária, carregando a sua dor em silêncio, sabendo que, embora o homem tenha partido, o seu legado maldito ainda reside nas memórias dos que o conheceram. Para ela e os seus filhos, o fardo do passado nunca será completamente apagado.
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 14 de Outubro de 2025, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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