O fio eléctrico escondido na toalha — LEANDRO PAUL
Naquela manhã abafada no Bairro T3, o ar parecia mais pesado do que o habitual, como se anunciasse algum mau presságio que ninguém sabia interpretar.
Isaías, 19 anos acabados de fazer, levantou-se com o corpo dormente de sono atrasado e pressa de vida. Era domingo, e os domingos no T3 têm sempre um ritmo próprio, entre o cheiro a pão quente dos vizinhos e os rádios sintonizados em programas de actualidades.
Isaías caminhou pela casa estreita, ainda a esfregar os olhos. Pegou na toalha, flácida e desbotada, e foi em direcção à casa-de-banho, um compartimento pequeno, de paredes húmidas, onde a luz entrava apenas por um canto da janela. Nada no cenário denunciava o perigo escondido.
A água começou a correr e o vapor subiu devagar, transformando o espelho num quadrado baço que devolvia apenas a sombra da sua figura.
Isaías sentia-se confortável naquele pequeno ritual matinal, como se a água estivesse ali para lavar não só o corpo, mas também os pensamentos dispersos que o acompanhavam desde a adolescência.
Foi então que, num gesto banal, inocente, puxou a toalha.
O pano cedeu mais depressa do que o esperado, e por detrás dele algo caiu, um estalido seco, metálico, que ecoou nas paredes estreitas. Um fio eléctrico.
Um fio fino, escuro, aparentemente morto, que escorregou como uma cobra silenciosa e tocou a parede molhada antes de lhe roçar o corpo.
A electrocução foi imediata. Não houve aviso, nem tempo para pensamento. Foi como se o mundo inteiro se tivesse tornado num clarão silencioso.
O corpo de Isaías ficou preso, rígido, incapaz de obedecer ao instinto mais básico, que seria afastar-se. Os músculos não respondiam. A voz, essa, perdeu-se algures entre a garganta e o ar saturado de vapor.
A casa-de-banho encolheu-se. Tudo ficou reduzido a um único instante prolongado de dor muda.
Isaías tentou gritar. Tentou largar a toalha. Tentou mexer os dedos. Nada. A electricidade é um adversário frio, entra sem pedir licença e não se anuncia. Ele sentiu o corpo fraquejar, a respiração tornar-se um fio ténue e a consciência começar a vacilar na beira do abismo.
Do lado de fora, a vida corria normal. Crianças brincavam no quintal, alguém discutia preços com o vendedor de pão fresco, e uma panela batia na cozinha de uma vizinha. Só um homem percebeu a dissonância, o seu vizinho.
Ao passar pelo quintal, Nando, um trabalhador nocturno habituado aos silêncios, ouviu um som estranho. Primeiro, pensou tratar-se de um balde caído. Depois percebeu que aquele ruído vinha acompanhado de uma respiração partida, quase um lamento engasgado. Não hesitou e empurrou a porta.
O que viu fez o coração gelar. Isaías, colado à parede, os olhos arregalados, o corpo nu e tenso como um cabo esticado.
Durante um segundo, Nando ficou imóvel. Depois reagiu como um homem que sabe que os segundos podem ser a diferença entre a vida e a morte.
Agarrou numa tábua seca encostada ao tanque, entrou numa investida rápida e atacou o fio com firmeza, como se estivesse a golpear a cabeça de uma cobra. O contacto que prendia o rapaz cessou num estalar abafado.
Isaías desabou nos seus braços, como um corpo que regressa do limite. Estava consciente, mas perdido, como se tivesse voltado à superfície depois de um mergulho, no fundo do rio, demasiado longo.
Nando arrastou-o para fora, gritou por ajuda, chamou a família, pediu transporte, tudo ao mesmo tempo. Os vizinhos acorreram em pequenos turbilhões de susto e de solidariedade.
Minutos depois, já estavam a caminho do Hospital Central. O carro avançava rápido pelas avenidas, e Isaías, recostado, respirava com dificuldade, com o olhar preso ao tecto do veículo.
No hospital, a equipa médica recebeu-o com a gravidade de quem já viu demasiados acidentes evitáveis. Examinaram-no, ouviram a história, trocaram olhares taciturnos.
Isaías falou pouco. A voz falhava, não só por dor, mas por um medo que lhe crescia como uma sombra. E se nunca mais fosse o mesmo? E se o choque tivesse levado algo que não se vê, mas que pesa no orgulho de um jovem?
Os médicos foram prudentes. Havia ferimentos e incertezas, mas havia também um facto impossível de ignorar: o jovem sobrevivera. Sobrevivera a um fio vivo, num espaço molhado, sozinho.
Nos dias seguintes, Isaías pensou muito. No momento exacto em que puxou a toalha. No estalido metálico. No segundo em que o mundo se apagou à sua volta. Pensou no seu vizinho Nando, no gesto rápido que lhe devolveu a vida e o futuro. E pensou, acima de tudo, na fragilidade das coisas: um fio esquecido, uma parede húmida, um gesto banal.
Quando finalmente saiu do hospital, caminhava com um cuidado novo, uma seriedade que antes não tinha. O Bairro T3 parecia o mesmo, as ruas, os ruídos, as vozes, mas ele sabia que não era. O mundo tinha-lhe mostrado, de forma brutal, que a vida pode virar do avesso em silêncio e em poucos segundos.
Nunca mais puxaria uma toalha sem olhar duas vezes.
Nunca mais confiaria na aparente inocência das pequenas coisas.
Nunca mais subestimaria o que está quieto num canto.
Porque há fios que parecem mortos.
E há dias em que o destino decide acordá-los só para testar quem morre ou sobrevive.
LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 24 de Novembro de 2025, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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