Quando o ciúme atravessou a rua— LEANDRO PAUL
Almiro regressava à casa, nessa tarde, com o corpo dorido. Trazia o pó da estrada nos sapatos e uma impaciência que não soube explicar. O tabuleiro de verniz que levara, nessa manhã, para vender, voltou com praticamente os mesmos frascos.
Caminhava exausto, arrastando o chinelo, quando a viu.
Celina seguia pela rua principal, passo tranquilo, conversa leve, ao lado de um homem que Almiro não conhecia.
Não estavam colados. Não riam alto. Nada ali parecia errado para quem olhasse de fora. Mas o ciúme não precisa de provas. Alimenta-se de suposições.
Almiro parou. O coração bateu-lhe rápido, desordenado. Tentou convencer-se de que era engano. De que havia uma explicação simples. Mas a mente já tinha escolhido o caminho mais curto.
Atravessou a rua sem pensar. Chamou pelo nome dela com uma voz que não reconheceu como sua. Celina virou-se, surpresa. Tentou falar. Tentou explicar. As palavras perderam-se no ar pesado.
O homem que a acompanhava recuou um passo. Disse qualquer coisa que Almiro não ouviu.
O primeiro empurrão veio sem anúncio. Não foi forte. Foi suficiente. O segundo já trouxe raiva. Os transeuntes abrandaram o passo. Alguém gritou para parar. Ninguém se aproximou.
Almiro sentia-se tomado por uma certeza estranha, injustificável, como se estivesse a defender algo que já não sabia definir. A mão foi à cintura por reflexo. Não era ameaça. Era aviso. Um gesto que diz mais do que qualquer palavra.
Celina colocou-se entre os dois homens. Pediu calma. Pediu que fossem para casa. Pediu para não transformar tudo num escândalo. O pedido soou frágil diante do que já se tinha instalado.
A dupla dos azulinhos chegou quando a situação já estava quebrada. O tumulto dissolveu-se em explicações atropeladas. Almiro falava demais. O outro homem falava pouco. Celina ficou em silêncio.
Na esquadra, as versões desfilaram como desculpas gastas. Almiro disse que perdera a cabeça. Disse que amava a mulher. Disse que tinha medo de a perder. Palavras grandes para gestos pequenos, mas perigosos.
Foi libertado horas depois. Caminhou para casa sozinho. As ruas pareciam agora mais estreitas. Cada sombra parecia acusá-lo de algo que ele próprio não queria nomear.
Celina não estava lá quando chegou. Apenas a casa vazia e um bilhete curto, escrito sem raiva, sem explicações longas. Dizia apenas que precisava de tempo e que iria ficar na casa da mãe.
Almiro sentou-se na cadeira da sala e ficou ali, imóvel, a ouvir o barulho distante da cidade. Pensou no momento em que atravessou a rua. Pensou em como tudo poderia ter sido evitado, com um passo a menos.
Percebeu então que o ciúme não nasce dentro de casa.
Nasce quando se acredita que o outro nos pertence.
E atravessa a rua sempre que encontra espaço para o erro.
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 05 de Janeiro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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