Tiraram-lhe uma barata de dentro da orelha — LEANDRO PAUL
A primeira coisa que ela ouviu foi um barulho pequeno, persistente, como quem raspa a unha num copo por dentro da cabeça.
Estava sentada no banco comprido do corredor da pediatria, à espera que chamassem o nome da filha. O hospital tinha esse cheiro antigo de lixívia mal misturada com cansaço. Mães dormiam sentadas, embrulhadas em capulanas gastas. Crianças choravam sem força. Enfermeiras passavam depressa, como se o tempo ali fosse sempre pouco.
O barulho voltou. Um mexer. Um roçar. Levou a mão à orelha esquerda. Não doía ainda. Era pior do que dor. Era estranheza. Como se alguma coisa tivesse decidido instalar-se ali sem pedir licença.
— É dos nervos — disse uma mulher mais velha, sentada ao lado — Hospital dá isso.
Ela assentiu. Tudo naquele lugar parecia darnervos.
Esperou.
À noite, deitada na esteira, ao lado da cama onde dormia a filha, quando as luzes diminuíram e o hospital entrou naquela vigília cansada entre o dia e a madrugada, o barulho intensificou-se.
Agora vinha acompanhado de pontadas, como pequenos golpes por dentro. Tentou deitar-se, mas o corpo recusou.
— Parece que o bicho mexe-se — murmurou, quase a pedir desculpa por dizer aquilo em voz alta.
Uma enfermeira ouviu e franziu o sobrolho.
Outra sorriu de lado.
— Isso são coisas da cabeça — disseram-lhe. — Aqui não é a tua aldeia, é hospital.
Mas ela sabia. Não era da cabeça. Era de dentro.
Quando o barulho começou a ter mais ritmo, lembrou-se das histórias antigas. Da avó. Das mulheres da sua terra. Lembrou-se de como diziam que certas coisas não entram no corpo por acaso. Que há bichos que não são só bichos.
Pensou em feitiçaria.
Não porque acreditasse cegamente, mas porque o medo também precisa de palavras. E aquela era a palavra que sempre aparecia quando o mundo deixava de obedecer às regras.
— Alguém fez isso — pensou, sem saber quem — Alguém não gostou.
De madrugada, já não conseguia ficar quieta. Sentou-se na maca, segurando a cabeça com as duas mãos, como se pudesse conter o que se passava lá dentro. O barulho agora parecia vivo. Insistente. Teimoso.
Quando, de manhã, finalmente chamaram um médico, ele olhou para dentro do ouvido e ficou em silêncio durante alguns segundos. Esses segundos foram piores do que todas as dores.
— Temos de operar — disse, por fim.
Ela não perguntou o quê. Nem porquê. Apenas assentiu.
No bloco operatório, as luzes eram demasiado brancas. Pensou na filha, que estaria algures naquele hospital cheio de gente, não se sabe com quem. Pensou que nunca ninguém lhe tinha explicado que um hospital também pode ser um lugar de abandono.
Quando acordou, o silêncio foi a primeira coisa que notou. Um silêncio novo, limpo, quase bonito. A dor estava lá, mas o barulho tinha ido embora.
Mais tarde, disseram-lhe.
— Era uma barata.
A palavra caiu pesada, como um objecto fora do sítio.
Fechou os olhos. Não por nojo. Por cansaço. Baratas eram coisas da cozinha, da noite, do chão. Não do corpo. Não da cabeça. Não do ouvido de uma mulher que só viera acompanhar a filha doente ao hospital.
— Entrou sozinha — disseram — Acontece.
Ela não respondeu. Pensou nas histórias outra vez. Pensou que talvez a barata tivesse entrado sozinha. Ou talvez tivesse sido mandada. Ou talvez o mundo fosse simplesmente um lugar onde coisas inexplicáveis acontecem sem pedir licença.
No corredor, as pessoas cochichavam.
— Isso é feitiço.
— Não é normal.
— Alguém queria-lhe mal.
Quando saiu do hospital, o sol bateu-lhe no rosto com força. Levou a mão à orelha, com cuidado, como se tocasse num lugar frágil, quase sagrado.
Nunca mais falou do assunto. Aprendeu que há dores que não se explicam sem se expor demais.
Às vezes, à noite, ainda acorda sobressaltada, convencida de que o barulho voltou. Depois lembra-se: já não está ali.
O que ficou foi outra coisa.
A certeza de que, quando a medicina se cala, o medo fala.
E quando o medo fala, chama-lhe feitiçaria para não enlouquecer.
LEANDRO PAUL *
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 02 de Fevereiro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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