O dilema do “mundo digital” — REFINALDO CHILENGUE
Enquanto nós, cá, na “cauda do Mundo”, nos empenhamos alegre e anarquicamente, a Bruxelas discute limites de idade para acesso às redes sociais, numa Europa que já percebeu que o “mundo digital” é um problema social, económico e de saúde pública. Fala‑se de proibir plataformas para menores de 15 ou 16 anos, de combater o design viciante e de obrigar gigantes tecnológicas a verificar a idade dos utilizadores.
Do outro lado, em grande parte da África – incluindo Moçambique – crianças e adolescentes entram nas mesmas redes num ambiente de quase total desregulação. É talvez uma das novas linhas de fractura da desigualdade global.
Na Europa, redes sociais são lidas como potenciais máquinas de ansiedade, comparação tóxica e vício. Governos e instituições comunitárias associam o consumo de conteúdos a distúrbios alimentares, auto‑imagem negativa, depressão juvenil e isolamento. Daí a pressão para impor regras: limites de idade, mecanismos de verificação, obrigações de transparência algorítmica, multas elevadas para empresas que ignorem os riscos. O Estado reivindica o direito de disciplinar o espaço digital em nome da protecção dos menores.
Em África, o ponto de partida é outro. Em muitos contextos, o telemóvel barato é a primeira televisão, o primeiro jornal, a primeira sala de aula informal e o primeiro parque de diversões. A questão “deve um menor ter conta em TikTok ou Instagram?” Parece, muitas vezes, luxo intelectual quando famílias continuam a lutar pela alimentação básica, pela matrícula escolar ou pelo transporte diário.
O resultado é um acesso anárquico: a idade real do utilizador pouco interessa, o tipo de conteúdo raramente é filtrado, os impactos psicológicos quase nunca entram na conversa pública.
Há, porém, um aspecto que torna esse cenário ainda mais complexo: redes sociais estão no centro da economia de sobrevivência. Em Maputo, Lagos ou Luanda, pequenos negócios de roupa, cosméticos, electrónica ou serviços vivem de grupos de WhatsApp, páginas de Facebook, vídeos no TikTok e “stories” no Instagram. É a vitrine, o balcão e o panfleto. E quem aparece, com frequência, na linha da frente dessa produção de conteúdo? Menores: filhos, sobrinhos, adolescentes com mais “jeito” para vídeo e linguagem digital, a segurar o telemóvel e a falar com potenciais clientes em directo.
Aquilo que na Europa é visto como risco – exposição precoce à publicidade, manipulação da atenção, normalização do consumo compulsivo – em muitos bairros africanos é simplesmente parte da estratégia familiar de rendimento.
Criticar o uso intensivo das redes sem olhar para a informalidade económica, a ausência de emprego estável e a falta de alternativas para a juventude é não perceber o terreno em que se pisa.
A verdadeira desigualdade digital já não é só quem tem ou não tem acesso à internet. É quem tem uma internet regulada e quem tem uma internet selvagem. Na Europa, há leis, reguladores, debates parlamentares, estudos e tecnologia desenhada para proteger menores. Em boa parte da África, o mesmo Estado ainda tenta garantir electricidade, estradas transitáveis, professores em número suficiente e hospitais minimamente equipados. Falar de aplicações de verificação de idade quando a escola luta por carteiras ou água potável ilustra bem o desfasamento.
Isso não significa que o tema deva ficar fora da agenda africana. Significa, sim, que é preciso partir de uma leitura mais honesta: redes sociais são, aqui, infraestruturas reais da vida económica e simbólica. São, ao mesmo tempo, oportunidade e risco. Pontes para informação, sociabilidade e rendimento, mas também canais para violência simbólica, sexualização precoce, desinformação e exploração da atenção infantil.
No caso moçambicano, a explosão de smartphones nas cidades e periferias veio sem um debate consistente sobre educação mediática, saúde mental juvenil ou regulação do consumo digital por menores.
Fala‑se de redes sobretudo em chave política – fake news, polarização, discurso de ódio – e pouco se discute o quotidiano: o que as crianças vêem, o que aprendem, que modelo de “sucesso” lhes é vendido pelos algoritmos, que medo ou frustração carregam ao fechar o ecrã.
Talvez a pergunta certa, para nós, não seja se devemos copiar Bruxelas e banir menores das redes sociais. Talvez seja outra: até que ponto estamos dispostos a deixar que a protecção digital de crianças e adolescentes africanos continue subordinada apenas à lógica de sobrevivência económica e ao interesse comercial das grandes plataformas? Se a resposta for “não”, então o digital deixa de ser tema “futurista” e passa a ser política social urgente.
Se quiser, posso agora ajustar esta coluna com referências explícitas a Moçambique (exemplos de bairros, termos locais, enquadramento jurídico mínimo) para publicação num jornal nacional; prefere manter o tom mais opinativo ou aproximar‑se de um registo analítico‑explicativo?
A MINTHIRU IVULA VULA KUTLHULA MARITO! Os actos valem mais que as palavras! Digo/escrevo isto porque ainda creio que, como em anteriores desafios, Moçambique triunfará e permanecerá, eternamente.
©REFINALDO CHILENGUE
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 15 de Julho de 2026, na rubrica TIKU 15.
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