Os efeitos da nova postura dos activistas do ISM
Os activistas do Al Sunna Wa Jammah, grupo afiliado ao Estado Islâmico em Moçambique (ISM) consolidaram desde 2022 um enclave ao longo da costa de Cabo Delgado, Norte do país, onde combinam pregação religiosa, coerção e práticas sectárias para ampliar sua base social e reduzir a resistência local, segundo análise de monitoramento de conflito e reportagens locais.
Dentro de um corredor costeiro que se estende por mais de 100 quilômetros e cerca de 50 km para o interior, os insurgentes mantêm uma aparente liberdade de movimento, apesar da presença militar nacional e estrangeira, preservam uma base operacional e executam acções destinadas a legitimar a sua autoridade junto a comunidades maioritariamente muçulmanas, afirmam analistas que acompanham o conflito.
Fontes que acompanharam a evolução do grupo também localmente chamado de Al Shabaab, descrevem uma mudança estratégica: depois de sofrer pesadas perdas em 2021 com a intervenção de forças regionais, o ISM deixou de perseguir exclusivamente acções massivas de violência contra civis na faixa costeira e passou a combinar visitas comunitárias, pregações, imposição de normas religiosas e extorsão com menos confrontos directos nessa zona específica.
Investigadores apontam que a alteração tática foi incentivada pela ligação formal do grupo ao Estado Islâmico central em 2022 e por renovação de liderança entre 2022 e 2023, medidas que fortaleceram a coordenação ideológica e operacional do ISM e promoveram uma orientação mais sectária nas mensagens dirigidas às populações costeiras.
Relatos recolhidos no terreno mostram que a propaganda do IS central passou a destacar actividades de “dawah” — pregação e aproximação social — em localidades costeiras onde o ISM procura apoio, ao mesmo tempo em que as diretrizes locais incitam a rejeição do Estado laico, a não cooperação com as autoridades e a aceitação da lei islâmica como alternativa governativa.

A tática inclui oferta de bens, imposição de normas (como proibição de álcool), cobrança de extorsões e, em alguns casos, exigência de jizya [imposto per capita historicamente cobrado de cidadãos não muçulmanos (dhimmis) em estados sob a lei islâmica (sharia) ], assim como detenções e recrutamentos forçados documentados em várias localidades, segundo registos de incidentes e notas divulgadas por observadores do conflito.
Apesar da mudança de tom na costa, o ISM manteve uma postura violenta em outras áreas da província: ataques letais, pilhagens e pressão sobre actividades económicas informais — nomeadamente mineração e transporte — persistem no Sul e no interior, alimentando deslocamentos e fragilizando a legitimidade do Estado.
A dinâmica local é também atravessada por factores étnicos e políticos: a zona costeira é maioritariamente habitada pelo povo Mwani, que no entender de alguns analistas em parte se sente marginalizado por elites de outras comunidades, contexto explorado pelo ISM para reforçar narrativas de exclusão e atrair simpatizantes ou tolerância passiva.
Analistas advertiram que a presença militar isolada não garante autoridade estatal: enquanto forças moçambicanas e contingentes internacionais, notadamente efectivos das Rwanda Defense Force (militares) como a Rwanda National Police (RNP) destacados para proteger projectos de GNL no Norte, mantêm posições, a incapacidade de restaurar serviços públicos e relações de confiança com as comunidades aumenta o risco de legitimação local do ISM e pode comprometer a aceitação social de investimentos estratégicos.

Especialistas responsáveis pelo monitoramento destacam que o território de influência em que o ISM opera é relativamente pequeno em termos geográficos, mas suficientemente grande para permitir expropriação de recursos e manter uma base logística, e que medidas militares isoladas serão insuficientes sem uma estratégia ampla de recuperação da autoridade do Estado e de reconstrução da confiança comunitária.
Entre as medidas recomendadas por analistas estão a manutenção sustentada da presença de segurança nas franjas do enclave, programas concretos de reintegração e serviços essenciais nas localidades afectadas, e acções direccionadas para minar as redes de financiamento e comunicação do ISM, de modo a impedir que o grupo transite de enclave coercivo para uma forma de quasi-governança que facilite recrutamento e arrecadação de recursos.
O trabalho de monitoramento que embasa estas conclusões foi produzido pelo Mozambique Conflict Monitor em colaboração com a Zitamar News e compila dados operacionais, análises de media do próprio Estado Islâmico e relatos locais sobre incidentes e práticas comunitárias.
©Redactor
Este artigo intitulado foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 01 de Julho de 2026.
Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Redactorfavor ligar para 843085360 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz
Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais ou pagando pelo paypal associado ao refinaldo@gmail.com.
Gratos pela preferência
Para ver a revista Prestígio de Julho/Agosto de 2026 clique AQUI