O reflexo da morte miserável de Augusta Semo

A morte de Augusta Semo, no bairro Centro Hípico, em plena cidade de Chimoio, expõe, de forma crua, as fragilidades e omissões do Instituto Nacional de Assistência Social (INAS) na província de Manica.

Augusta Semo, cidadã moçambicana residente em Chimoio, perdeu o braço direito após um grave acidente ocorrido na noite de 14 para 15 de Março de 2019. Na ocasião, quando regressava da casa de uma irmã, no Bairro Piloto, parte do muro de vedação do campo de corridas de motorizadas (vulgo Motocross) desabou sobre o seu corpo, deixando-a gravemente ferida. A amputação viria a ocorrer no Hospital Provincial de Manica.

Mãe de três meninas e um rapaz, Augusta Semo passou a viver em condições precárias durante anos, sem assistência estatal condigna. O caso só ganhou alguma visibilidade após a sua reportagem pelo jornal Redactor (edição nº 7130, de 12 de Agosto de 2025), o que levou o INAS a deslocar-se ao local onde a vítima residia.

Na ocasião, a delegada provincial do INAS em Manica, Esperança Tevede, ao proceder à entrega de uma cesta básica — composta por 10 quilos de arroz, igual quantidade de farinha, feijão manteiga, detergente e dois litros de óleo alimentar — reconheceu a gravidade da situação e assumiu compromissos claros. “Não sabíamos desta situação. Vamos accionar o sector da saúde para que ela seja assistida, pois precisa de acompanhamento médico multiforme. Também iremos providenciar uma cadeira de rodas, visto que não consegue andar”, afirmou.

No entanto, tais promessas nunca se materializaram.

Augusta Semo viria a falecer no dia 9 de Maio de 2026, sem nunca ter beneficiado do acompanhamento médico prometido nem da assistência social adequada. Nos seus últimos dias, já não vivia na tenda onde permaneceu durante cerca de cinco anos — descrita por vizinhos como um verdadeiro “forno” —, mas sim numa modesta casa de um compartimento (foto de destaque), erguida por iniciativa de uma seita religiosa local, numa clara demonstração de que a solidariedade comunitária substituiu a responsabilidade do Estado.

Três semanas após o seu falecimento, o jornal Redactor voltou a contactar a delegada do INAS em Manica, na sexta-feira, 5 de Junho de 2026. A resposta obtida revelou não apenas aparente falta de memória institucional, mas também um preocupante descompromisso com declarações anteriormente assumidas.

Ah, não faz isso. Vai para lá, a comunidade já comprou chapas e melhorou a casa. Sobre a saúde dela, não falei nada, isso é da responsabilidade da saúde. Informei ao doutor Jaqueta. Foram envidados esforços, só não sei se já colocaram porta na casa”, afirmou Esperança Tevede, antes de encerrar abruptamente a chamada telefónica, numa atitude que pode ser interpretada como desrespeitosa para com o exercício do jornalismo.

Questionado sobre o alegado encaminhamento do caso, o director provincial de Saúde em Manica, Firmino Jaqueta, mostrou-se igualmente evasivo: “Não me recordo de ter sido informado pela senhora Esperança. Mesmo que tenha sido, não me recordo. Temos muitos doentes, não é fácil lembrar de um caso específico”.

O caso de Augusta Semo levanta sérias questões sobre a coordenação institucional, a responsabilidade pública e o cumprimento de promessas por parte de entidades estatais. Mais do que um episódio isolado, trata-se de um retrato inquietante da distância entre o discurso oficial e a realidade vivida pelos cidadãos mais vulneráveis.

Entre promessas não cumpridas, falhas de comunicação institucional e declarações contraditórias, o caso de Augusta Semo expõe uma realidade inquietante: a de um sistema de assistência social que reage tarde, actua pouco e, frequentemente, esquece aqueles que mais precisam.

Mais do que uma tragédia individual, este caso levanta uma questão incontornável: quantas outras “Augustas” permanecem invisíveis, à espera de promessas que nunca sairão do papel?

©ONÓRIO ENCARNAÇÃO (Texto e foto)

Este artigo intitulado foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 08 de Junho de 2026.

Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Redactorfavor ligar para 843085360 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz 

Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais ou pagando pelo paypal associado ao refinaldo@gmail.com. Gratos pela preferênciaPara ver a revista Prestígio de Maio/Junho de 2026 clique AQUI

Compartilhe o conhecimento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *