A galinha na barriga – LEANDRO PAUL
Na Feira Popular de Maputo, entre o cheiro a carvão e gordura, trabalhava Mateus Nhantumbo, ajudante de cozinheiro de uma modesta casa de frangos. Passava os dias inclinado sobre as brasas, virando aves assadas, servindo clientes que iam e vinham como ondas num mar barulhento. Era um homem simples, discreto, com poucos amigos, mas respeitado pela forma como cumpria o ofício.
Ninguém poderia imaginar que seria ele o protagonista de uma das histórias mais estranhas que a cidade já ouvira.
Certo dia, ao cortar um frango, sentiu uma dor intensa na barriga. Achou que fosse indigestão, uma má refeição. Mas, nos dias seguintes, as dores voltaram, persistentes, e o abdómen começou a inchar devagar, devagarinho, mas de forma assustadora. Colegas perguntavam-lhe se estava bem, clientes afastavam-se ao vê-lo curvado, mas Mateus sorria sem graça e respondia que era apenas cansaço.
O inchaço, porém, tornou-se insuportável. Numa tarde abafada, diante da grelha acesa, a sua barriga começou, então, a crescer num ritmo assustador. Os clientes recuaram horrorizados. O patrão chamou uma carrinha, e Mateus foi levado às pressas ao Hospital Central.
Os médicos, ao examinarem-no, ficaram confusos. Decidiram operar de imediato. Quando abriram o abdómen, a sala encheu-se de um silêncio pesado. No interior, encontraram uma galinha morta, inteira, alojada como se tivesse sido colocada ali por mãos invisíveis. O corpo da ave não apresentava sinais de digestão ou mutilação. Estava intacta, com penas e tudo.
O insólito foi escondido às pressas. O animal foi trancado numa sala reservada, longe dos olhares curiosos. Os médicos evitavam falar. Entre eles, murmurava-se que nunca tinham visto nada assim. Mateus, adormecido pela anestesia, nada sabia.
Dias depois, ainda internado, ouviu rumores: enfermeiros a cochicharem, auxiliares a rirem de nervoso. “Tiraram uma galinha de dentro de ti”, diziam. Ele recusava-se a acreditar, mas o olhar aflito das tias confirmou o impensável: “Isto é feitiço, Mateus. Não é coisa natural”.
Os mais antigos sabiam de histórias assim: homens que cuspiam cobras, mulheres que davam à luz pedras. Mas uma galinha inteira dentro de um estômago? Isso parecia demasiado assustador até para a imaginação popular.
As suspeitas apontaram para dentro da própria família. Uma semana antes da doença, um primo distante visitara Mateus pedindo dinheiro para pagar dívidas de agiotagem. Ao receber a recusa, saíra furioso, murmurando palavras obscuras. As tias lembravam-se bem do rancor. Não disseram o nome em voz alta, mas os olhares denunciavam que acreditavam saber o culpado.
Enquanto Mateus recuperava, a cidade falava dele como se fosse lenda viva. Na Feira Popular, onde antes servia frangos, ninguém voltava a comer sem antes mencionar o seu nome. “Foi aviso dos antepassados”, dizia um cliente. “Erro da natureza”, respondia outro. A verdade, ninguém sabia.
Mateus nunca mais voltou a tocar numa grelha. Foi trabalhar como borracheiro.
Não era medo, dizia a quem perguntava, mas respeito. “Há coisas que não devemos desafiar”. O corpo sarou, mas a alma carregava a cicatriz do inexplicável.
E quanto à galinha? Ninguém soube o destino. Uns garantem que ficou escondida no hospital, guardada como prova de que o sobrenatural e o natural se cruzam quando querem. Outros juram que foi enterrada às escondidas, para que o espírito da ave encontrasse paz.
A Feira Popular, no entanto, jamais esqueceu. Até hoje, quando o carvão crepita e a gordura pinga sobre a brasa, há quem recorde em sussurros: “Foi aqui que um homem carregou dentro de si uma galinha inteira”.
* Jornalista, jurista, docente universitário e empresário
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 15 de Setembro de 2025, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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