Terror na madrugada — LEANDRO PAUL

No mercado Xikelene, a madrugada prometia ser apenas mais uma noite comum de sexta-feira para sábado. A barraca do senhor Macamo, como sempre acontecia aos fins-de-semana, estava apinhada de gente, com risos embriagados e copos de cerveja e “chibuku”, uma bebida tradicional, que enchiam o ar com seu odor acre.

Mas a atmosfera mudou num piscar de olhos, quando três figuras sombrias cruzaram o limiar da barraca. As suas caras traziam um prenúncio de desgraça, e em poucos segundos, a ameaça caiu sobre todos como um trovão.

Mãos ao ar, quem se mexer morre!”. O comando saiu seco, desprovido de qualquer humanidade, como se os três bandidos fossem meros fantasmas do faroeste, atravessando o tempo para semear o terror. E assim, o caos começou. Num movimento preciso, os criminosos avançaram, vasculhando cada bolso, cada caixa, em busca de qualquer valor que justificasse o medo que semeavam. Os olhares dos clientes, antes animados pelo álcool, agora estavam carregados de pânico.

Eugénio, um homem de 62 anos, estava ali, como tantas outras vezes, mas naquela noite, o destino o traíra. Não estava a beber, apenas procurava um pouco de companhia, longe do silêncio da sua casa.

Sentado num canto, com a cabeça pousada sobre a mesa, não teve tempo de entender o que se passava. O barulho das conversas abafadas e o tilintar das garrafas deram lugar ao som das botas dos bandidos, que se aproximavam cada vez mais.

Um dos homens, de pistola em punho, avançou na sua direcção. Eugénio despertou apenas quando a frieza da arma tocou o seu nariz. Num reflexo de desespero, tentou resistir, balbuciando qualquer coisa enquanto o medo tomava conta do seu corpo.

Mas não houve tempo para reacções. Um tiro seco perfurou o silêncio e o coração de Eugénio. A bala, precisa e cruel, arrancou-lhe a vida num segundo. O velho tombou, o corpo inerte, ainda com o semblante de quem não entendia por completo o seu destino.

A barraca encheu-se de gritos abafados e lágrimas silenciosas. Os criminosos, sem qualquer sinal de remorso, levaram consigo o pouco que conseguiram roubar: uns 10 mil meticais e alguns pertences dos clientes aterrorizados. Para eles, aquele montante não era suficiente, e foi isso que, talvez, os levou a disparar, a tirar a vida de um homem que nada tinha a ver com os seus planos.

Quando o sol nasceu, a notícia da morte de Eugénio já se havia espalhado. Benjamim, o filho, fora avisado horas depois. Acordado por dois homens e uma mulher, soube que o seu pai tinha sido mortalmente baleado.

Chegou tarde ao local. A barraca já estava a ser lavada, o sangue do seu pai misturando-se com a água, desaparecendo lentamente entre as fendas do chão. Tudo o que restava eram os vestígios daquela noite cruel, os traços de uma vida que se apagara sem aviso.

O corpo de Eugénio já estava na morgue do Hospital Central de Maputo, e Benjamim, com o coração pesado de dor e de raiva, não conseguia acreditar que o seu pai já não estava entre os vivos.

Naquele mercado, agora manchado de sangue e de memórias sombrias, ficava apenas o eco da violência e o lamento de uma perda irreparável.

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 06 de Outubro de 2025, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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