Assaltado duas vezes na véspera do casamento — LEANDRO PAUL
A noite caía lentamente sobre os arredores de Maputo, vestindo a cidade de sombras e promessas.
Adriano e Teresa contavam as horas para o grande dia: o casamento oficial que, depois de três anos de vida em comum, selaria o amor que resistira a tudo, à pobreza, às dúvidas e ao tempo.
O vestido de noiva já estava quase pronto. As alianças, guardadas na pequena cómoda do quarto, reluziam discretamente, como quem antecipa o brilho da manhã seguinte.
Tudo estava preparado para ser uma noite de alegria, mas o destino, esse caprichoso mestre das reviravoltas, tinha outros planos.
Adriano, de 27 anos de idade, vendedor de roupas, saiu apressado para ir buscar Teresa à costureira. O coração batia-lhe leve, entre a ansiedade e a ternura. Não sabia que, naquela noite, cruzaria o olhar frio da crueldade humana.
Por volta das oito, Teresa já tinha regressado a casa. Mas Adriano, sem saber disso, seguiu em direcção ao bairro onde pensava encontrá-la. No caminho, um amigo da igreja avisou-o de que ela já estava em casa.
— Graças a Deus, murmurou aliviado.
Virou para trás e começou o regresso.
Mas ao atravessar um terreno baldio conhecido como Campo, a escuridão engoliu-o. De repente, das sombras, surgiram três silhuetas.
— Para aí! — gritou uma voz áspera.
Não teve tempo de reagir.
Um golpe certeiro atingiu-lhe o rosto. Outro no peito. Caiu. Sentiu o gosto de sangue e terra misturados.
Bateram-lhe até à exaustão. Arrancaram-lhe a carteira, os documentos, o dinheiro e até o relógio que pretendia usar no casamento.
Quando finalmente o deixaram, jazia no chão, o braço dorido e a respiração entrecortada. Mesmo assim, arrastou-se pela poeira até à casa.
Teresa, ao vê-lo naquele estado, soltou um grito que ecoou pela noite. Lavou-lhe as feridas com mãos trémulas, improvisou ligaduras e juntos agradeceram a Deus, por ele ainda estar vivo.
Pensaram que o pior já tinha passado. Mas estavam enganados.
Por volta da meia-noite, quando o silêncio parecia enfim repousar sobre o bairro, ouviram passos. Um som metálico na porta.
Antes que pudessem reagir, três homens entraram à força.
Adriano, ainda combalido, tentou levantar-se, mas uma pancada no ombro fê-lo cair de novo.
Os intrusos reviraram gavetas, levaram dois televisores, uma aparelhagem sonora e tudo o que puderam levar, até mesmo as alianças. Teresa gritava, impotente, pedindo apenas que não lhe fizessem mal.
Quando finalmente saíram, deixaram para trás um rasto de destruição e medo. O silêncio que se seguiu era mais pesado do que o ruído dos ladrões.
Na manhã seguinte, alguns dos bens apareceram misteriosamente abandonados num arbusto próximo. Um gesto estranho, quase provocatório.
Adriano entendeu aquilo como um aviso.
— Eles vão voltar… são os mesmos. Querem destruir o nosso casamento, disse, com os olhos marejados de dor e raiva.
O casal decidiu então adiar a cerimónia. A alegria cedeu lugar ao receio. Cada ruído no portão fazia Teresa estremecer. Cada sombra na rua parecia esconder os agressores.
As semanas seguintes foram de silêncio. O amor continuava ali, mas escondido atrás das feridas e do medo.
No coração de Adriano, porém, ardia uma certeza: alguém estava por trás de tudo aquilo!
O motivo, esse, permanecia envolto em mistério.
E até que o descobrisse, a sensação de segurança não regressaria, porque, naquela véspera de casamento, não lhe tinham roubado apenas os bens. Tinham-lhe roubado a fé no mundo.
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 27 de Outubro de 2025, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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