Matou o cobrador e lambeu a lâmina ensanguentada — LEANDRO PAUL
Armando C. nunca soube, exactamente, quando terminou a adolescência e começou a idade adulta. Cresceu nos becos de Xipamanine a ouvir gritos que não lhe pertenciam e histórias que lhe queimavam a memória. Aos 18 anos, já carregava nos ombros a idade de quem vivera demasiado depressa.
Era conhecido pelas insolências de rua, actos que muitos desculpavam com a pobreza e outros, com más companhias. Mas Armando queria mais. Queria marcar território. Queria que os outros recuassem quando ele passasse. Havia visto isso num filme de “cowboys” e sonhava ser temido, como o mau da fita, com quem havia simpatizado.
Numa manhã abafada, entrou num chapa como tantos outros. Levava na algibeira, sem que os outros soubessem, uma navalha velha que usava para assustar quem ousasse desafiá-lo.
Sentou-se encostado à janela, olhando o movimento da cidade como quem avalia o mundo que o não quis adoptar.
O chapa ia cheio. Vendedores ambulantes encostavam sacos aos vidros. Lá dentro, as pessoas abanavam o calor com jornais velhos. O motorista conversava alto, o cobrador gritava destinos. Para todos, era mais um dia comum.
Mas para Armando era o dia em que acreditava que finalmente seria “alguém”. Estava convicto que aquele era o dia do seu aniversário, embora o BI dissesse outra coisa.
No meio do percurso, o cobrador pediu para que ele pagasse a viagem. Armando recusou. Argumentou que ainda não havia chegado ao destino. Primeiro com uma provocação, depois com desprezo.
— Não me chama de “ninguém”. Hoje vais ver com quem falas – murmurou, baixo, mas carregado de intenção.
O cobrador insistiu.
— Tens cara de quem não tem dinheiro para me pagar. Pagas agora ou sais já do chapa! — Ordenou o cobrador em voz alta e com o tom próprio de quem manda.
Ninguém imaginava que aquelas palavras soltas iriam incendiar um acto macabro que marcaria a cidade durante longo tempo.
Foi quando Armando sacou da arma – não fumegante como no filme dos “cowboys” -, mas pontiaguda, suficiente para desferir no tórax do cobrador várias facadas.
A versão que Armando contaria mais tarde – numa voz fria, quase ausente – dizia que quis provar que já era “um homem”, que ninguém lhe podia faltar ao respeito. Falava como se estivesse a narrar a história de outro. Como se não tivesse sido ele.
Depois do ataque, o pânico tomou conta dos passageiros. Uns gritaram, outros fugiram. O chapa ficou parado na berma, silencioso como um animal ferido.
Armando, num gesto perturbador, aproximou-se da lâmina ensanguentada e lambeu-a, não por sede, mas por afirmação. Queria mostrar poder. Queria tornar-se lenda.
Quando a Polícia o deteve, não ofereceu resistência. Parecia desligado do mundo, como se tivesse cumprido um ritual que só ele compreendia.
— Não sei porque fiz aquilo — disse, perante o juiz, quando foi ouvido no tribunal. Mas os olhos traíam-lhe outra verdade: a de que, por um instante, gostara da sensação de ser temido.
O tribunal condenou-o a 15 anos de prisão e indemnização à família do malogrado. Pesos que recairiam sobre ele durante longo tempo da sua vida. Mas nenhuma sentença poderia devolver o cobrador à família, nem apagar o terror daquela manhã no chapa.
Na cadeia, dizem que Armando passou meses sem falar. Outros dizem que passou anos a tentar perceber se o acto terrível que cometera fora impulso, loucura ou simples desejo de reconhecimento. Houve quem o ouvisse murmurar que, naquele dia, quis mesmo provar que era “um homem”.
Mas o que provou, na verdade, é que a fronteira entre o medo e a tragédia é tão ténue quanto um fio de lâmina, mesmo que enferrujada.
E a cidade, que sempre aprendeu depressa a esquecer violências, não esqueceu esta. Porque todos, um dia, já entraram num chapa confiando que a vida continua.
E naquele dia, alguém lembrou que a violência, às vezes, viaja sentada ao nosso lado.
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 08 de Dezembro de 2025, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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