A banheira assassina— LEANDRO PAUL

A casa ficava num bairro antigo, desses onde as paredes guardam mais segredos do que fotografias. Naquela tarde abafada, Miguel chegou com o passo pesado e o corpo cansado de quem passou demasiados anos a obedecer ao ritmo do mar.

Tinha 45 anos, mãos duras, ombros largos, e um hábito antigo de achar que ainda controlava tudo. Ana ouviu a chave antes de o ver. Reconhecia-lhe o som. Cada homem entra em casa com um ruído próprio. Miguel entrava como quem traz sempre alguma coisa por dizer. Tinham combinado pouco. Não era preciso. O silêncio entre eles já era um acordo antigo.

A casa-de-banho era pequena, revestida de azulejos claros, uma banheira branca encostada à parede, marcas de ferrugem nos cantos e uma torneira que nunca fechava completamente. Nada ali denunciava perigo. Nada parecia fora do lugar.

Miguel despiu-se devagar. Sentia o corpo pesado, a cabeça quente, um torpor estranho que confundia desejo com cansaço.

Ana abriu a água e o som encheu o espaço, abafando qualquer pensamento que pudesse travar o momento. A água subiu, lenta, cobrindo o fundo da banheira. O vapor começou a colar-se às paredes, tornando tudo menos nítido, menos definido, como se a própria casa-de-banho quisesse apagar o que ali se passava.

Foi quando o pior aconteceu. Um movimento mal calculado. Um passo em falso. Um corpo pesado demais para uma superfície escorregadia.

Miguel tentou equilibrar-se, mas o chão liso não perdoa hesitações. O pé deslizou, o tronco inclinou-se e o impacto veio rápido, seco, definitivo.

O som foi o primeiro aviso. Um ruído surdo, contra o canto rígido da banheira. Depois, o silêncio.

Ana ficou imóvel por um segundo que lhe pareceu interminável. Chamou o nome dele uma vez. Depois outra. Aproximou-se, tocou-lhe no ombro, sacudiu-o com cuidado, como se ainda acreditasse que bastaria um gesto para desfazer o que já estava feito.

O sangue começou a misturar-se com a água, diluindo-se num tom pálido que escorria devagar pelo ralo. A banheira branca deixava de o ser.

Ana gritou por ajuda. Abriu a porta. Chamou vizinhos. Pediu transporte. Falava depressa, como se as palavras pudessem chegar antes da morte.

Miguel foi levado às pressas. No caminho, o corpo permanecia pesado, ausente, estranho, como se já não lhe pertencesse.

No Hospital Central, os médicos fizeram o que fazem quando chegam tarde demais. Examinaram, trocaram olhares, anotaram horas. A vida, quando decide partir, não se impressiona com batas brancas.

Ana ficou sentada num banco frio, as mãos molhadas, os olhos fixos num ponto qualquer da parede. Pensava no instante exacto em que tudo se desfez. No passo errado. Na banheira. Na água. No som seco que não lhe saía da cabeça.

Quando lhe confirmaram que Miguel tinha morrido, não chorou de imediato. Há dores que precisam de tempo para encontrar forma.

Nas horas seguintes, a história espalhou-se. Uns falavam em acidente. Outros em imprudência. Houve quem julgasse em silêncio, quem apontasse dedos invisíveis, quem preferisse não saber detalhes.

A casa voltou a ficar quieta. A casa-de-banho foi lavada vezes sem conta, mas o branco nunca voltou a ser o mesmo. Há manchas que não se vêem, mas permanecem.

Ana passou a evitar aquele espaço. Tomava banho depressa, de pé, sem fechar totalmente a porta. Cada azulejo parecia guardar uma memória que ela não queria acordar.

Com o tempo, percebeu que não era apenas Miguel que tinha morrido naquela banheira. Algo nela também ficara ali, preso àquele instante breve em que a vida escorregou sem aviso.

Porque há casas-de-banho que são apenas casas-de-banho.

E há outras onde um segundo mal calculado transforma o desejo em luto.

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 22 de Dezembro de 2025, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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