Enviuvou e cunhado ficou com tudo — LEANDRO PAUL

No dia em que enterraram o marido, Erminda ainda tinha casa. Tinha paredes de bloco mal rebocado, uma porta que rangia quando o vento mudava e um quintal onde as crianças costumavam brincar descalças, inventando jogos com nada.

Dentro de casa, tinha um fogão a carvão, uma panela grande e uma fotografia antiga, quando foi lobolada, pendurada torta na parede da sala.

Após o enterro, a casa estava cheia. Gente sentada no chão, gente em pé, gente que falava baixo e gente que chorava alto por obrigação, enquanto comiam e bebiam. Algumas mulheres entravam e saíam da cozinha e vários homens fumavam do lado de fora. Havia farinha, arroz, cerveja, vinho de pacote, palavras repetidas.

Coragem, irmã.

Deus sabe o que faz.

A vida continua.

Erminda ouvia tudo como quem escuta chuva cair sobre um telhado que já tem goteiras demais. Assentia com a cabeça. Agradecia. Não chorava alto. Nunca fora mulher de espectáculo. Chorava para dentro, num lugar onde ninguém podia tocar.

À noite, quando a casa finalmente ficou em silêncio, sentou-se no chão da sala, encostada à parede, e olhou para os filhos adormecidos sobre a esteira. Pensou que agora era ela. Só ela. Pensou que precisava ser forte, como sempre lhe tinham dito que as mulheres deviam ser.

Não sabia ainda que a força também se cansa.

Nos primeiros dias, tudo parecia incerto. Como se o tempo tivesse decidido esperar por ela. As pessoas continuaram a aparecer, os vizinhos ajudaram, a igreja mandou recado. Houve até quem dissesse que o marido tinha sido um bom homem. Erminda guardou essa frase com cuidado, como se fosse um objecto frágil.

Depois, lentamente, as visitas diminuíram. O arroz acabou. A farinha também. As bebidas foram as primeiras a esgotar. As crianças começaram a perguntar quando o pai voltava, e ela aprendeu a responder com silêncio.

Foi então que começaram os olhares. Não palavras. Olhares.

Quando passava na rua, algumas mulheres baixavam a voz. Outras atravessavam para o outro lado. Uma vez, ouviu o sussurro atrás de si, cortante como lâmina:

É ela.

Não perguntou o que queriam dizer. Já sabia. Em bairros como aquele, a morte nunca vem sozinha. Vem sempre acompanhada de uma explicação conveniente. De um culpado. E a explicação mais fácil era ela.

Feiticeira.

A palavra nunca lhe foi dita directamente. Foi-se colando à sua pele aos poucos, como poeira fina que entra pela janela e se deposita em tudo.

Pouco depois, o cunhado começou a aparecer. Entrava sem pedir licença, sentava-se como se fosse dono do espaço, falava do irmão como quem fala de um negócio inacabado. Dizia que era preciso organizar as coisas. Que havia tradições. Que ela devia compreender.

Os bens são da família — dizia, sem olhar para ela.

Sempre foi assim.

Erminda compreendia muitas coisas. Compreendia a fome. Compreendia o cansaço. Compreendia a dor. O que não compreendia era como se perde uma vida inteira sem assinar papel nenhum.

Primeiro desapareceu o dinheiro. Depois os documentos. Depois a autoridade sobre a própria casa.

Um dia, chegou e a porta estava fechada. Não houve discussão. Não houve autoridade, nem mesmo do bairro. Apenas uma chave que já não abria nada. Espreitou para dentro, através da janela e viu nada. Apenas chão vazio.

Nessa noite, dormiu com os filhos na casa de uma vizinha. Não chorou. Estava cansada demais para chorar.

Os dias passaram a ser feitos de espera. Espera por ajuda. Espera por justiça. Espera por alguém que dissesse que aquilo não era normal.

Mas o mundo tem uma forma cruel de normalizar o sofrimento alheio.

Afinal ela havia construído aquela casa com o pai das crianças. Como poderia ficar sem nada?

Hoje, Erminda vive numa dependência arrendada. Arranjou emprego como doméstica na casa de uma patroa na cidade.  Os filhos cresceram depressa demais, como crescem sempre os filhos da perda. Já não perguntam pelo pai. Já aprenderam que certas ausências não se explicam.

Às vezes, passa pela antiga casa. Não olha. Aprendeu que certas memórias mordem.

O marido morreu. A casa foi-lhe tirada. A dignidade quase foi roubada.

Mas Erminda ficou.

E ficar, quando tudo conspira para apagar uma mulher, é também uma forma de resistência.

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 19 de Janeiro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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