Morto telefona à filha durante o velório — LEANDRO PAUL

O velório decorria numa casa modesta no bairro do Aeroporto, cidade de Maputo, dessas onde as paredes conhecem bem a palavra perda. As cadeiras tinham sido emprestadas por vizinhos, o lençol branco estendia-se sobre o corpo com um cuidado quase cerimonial e o murmúrio das orações misturava-se com o cheiro persistente da cerveja quente.

Domingos Nhantumbo jazia no centro da sala, imóvel, rodeado por rostos cansados. Diziam que tinha sido atropelado na linha férrea, na zona do Vulcano, ao cair da noite. Um acidente. Uma explicação curta para uma ausência grande demais.

A família repetia a versão como quem precisa de acreditar em algo concreto. O mundo já é suficientemente confuso sem mortos que desafiem a lógica.

Celina, a filha mais velha, permanecia sentada num canto, as mãos cruzadas no colo, o olhar perdido algures entre o chão e o lençol que cobria o pai. Tinha posto o celular em silêncio, depois no vibrador, por respeito, mas também por medo. Havia coisas que não queria ouvir naquele dia. Mas também havia quem quisesse dar-lhe as condolências e a esses não se pode negar.

As pessoas entravam e saíam em silêncio contido. Algumas choravam. Outras limitavam-se a tocar-lhe no ombro e a dizer frases gastas, dessas que se dizem quando já não se sabe o que mais dizer.

Foi então que o telemóvel vibrou.

O som foi curto, quase indecente naquele ambiente. Celina olhou para o ecrã sem intenção real de atender. Um número desconhecido. Pensou que fosse engano. Pensou em rejeitar a chamada. Mas algo — um reflexo antigo, talvez — levou-a a deslizar o dedo.

Estou? — disse, com voz baixa, esperando mais uma chamada de consolo pela perda irreparável.

Do outro lado, houve uma pausa. Depois, uma respiração pesada.

Filha… — disse a voz.

Celina sentiu o corpo falhar. Conhecia aquela voz desde sempre. Reconhecia-lhe a forma de dizer o nome, o ritmo cansado, a pausa antes das palavras difíceis.

Pai? — respondeu, quase em sussurro.

O silêncio prolongou-se. Depois, a voz voltou, confusa, aflita.

Diz-me, minha filhapor que é que toda a gente diz que eu morri?

O mundo encolheu.

Celina levantou-se bruscamente. O celular escorregou-lhe da mão e caiu no chão. As pernas cederam. Duas mulheres correram para ampará-la antes que desmaiasse. As orações pararam. O velório ficou suspenso num instante impossível.

O que foi? — perguntou alguém.

Ninguém respondeu.

Alberto, irmão de Domingos, apanhou o telefone do chão. Levou-o ao ouvido com a mão a tremer. Do outro lado, a voz insistia. Dizia que estava à porta de casa. Dizia que ninguém lhe abria. Dizia que se sentia estranho, cansado, como se tivesse caminhado muito.

Alberto empalideceu. Olhou para o corpo na sala. Era o irmão. Olhou para Celina, agora sentada, com o rosto escondido nas mãos.

Isto não pode ser — murmurou, antes de desligar.

O pânico instalou-se. Alguém correu à porta, para que o defunto — o vivo, o que estava a ligar — pudesse entrar. Ao abrir, uma forte ventania se fez sentir. Mas ali não estava ninguém.

Alguém chamou a Polícia. As pessoas falavam todas ao mesmo tempo, tentando encontrar explicações para o que estava a suceder, um acontecimento que se recusava a fazer sentido.

Horas depois, as autoridades chegaram. Perguntas atropelaram-se. Verificações foram feitas. O corpo na sala era, sem dúvida, o de Domingos. As roupas, os traços, as marcas confirmavam. Não havia margem para erro.

Ainda assim, a chamada tinha acontecido. Tinham-na ouvido a filha e o irmão do defunto.

O velório prosseguiu, mas já não era o mesmo. O silêncio tornara-se pesado, desconfiado. A cerveja acabou. Também a comida.  Já não fazia mais sentido permanecer ali.

Celina não voltou a tocar no telefone.

O funeral realizou-se como manda a tradição. A terra fechou-se sobre o caixão. As pessoas regressaram às suas rotinas, levando consigo a história como um murmúrio estranho para contar aos outros.

Celina tentou seguir em frente. Guardou o luto, arrumou a casa, voltou ao trabalho.

Mas o telefone passou a dormir desligado numa gaveta. Não por superstição. Por prudência.

Uma semana depois, o ecrã voltou a acender-se com o mesmo número. Celina viu-o. Reconheceu-o. Não atendeu. Desligou o aparelho e voltou a guardá-lo.

Percebera, finalmente, que há despedidas que não se fazem cara a cara.

E há chamadas que atravessam o velório apenas para lembrar que nem a morte obedece sempre às regras.

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 16 de Fevereiro de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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