A união espiritual — LEANDRO PAUL
Quando Maria Sabonete chegou à casa do curandeiro, em Dimba, no distrito de Cheringoma, trazia no rosto o cansaço de quem já tentou quase tudo.
Tinha 27 anos e um casamento que começava a desmoronar-se lentamente. Havia quase dez anos que ela e o marido, Rui António, esperavam um filho que nunca chegava.
No início eram apenas perguntas inocentes da família. Depois vieram os conselhos, as suspeitas, os olhares demorados das vizinhas.
Com o tempo, a ausência de crianças na casa transformou-se num peso invisível.
Foi uma amiga quem lhe falou de João Sitoe, um curandeiro conhecido na região, proveniente de Inhambane.
Diziam que tinha curado muitas mulheres que já tinham perdido a esperança. Diziam que as suas ervas eram fortes, que os seus rituais eram antigos, que ele sabia falar com forças que os médicos normais não entendiam.
Maria ouviu aquelas histórias como quem segura uma última oportunidade.
Quando contou ao marido, Rui hesitou. O dinheiro era pouco e a fé dele nas soluções tradicionais nunca foi grande. Mas a insistência da esposa acabou por convencê-lo.
— Se é para termos um filho, vamos tentar — disse ele, conformado.
Na primeira consulta, o curandeiro falou devagar, como se cada palavra tivesse peso.
Disse que Maria sofria de dois males. Um era do corpo. O outro era do espírito. Falou de bloqueios invisíveis, de energias que impediam a fertilidade e de uma frieza que precisava ser tratada.
A explicação parecia confusa, mas vinha envolta numa segurança que fazia qualquer dúvida parecer ignorância.
O tratamento começou com ervas.
Maria recebeu pequenas porções de medicamentos naturais, incluindo raízes que deveria ferver e que deveria tomar em casa, em horários específicos. Alguns serviam para beber. Outros para banhos de purificação. O curandeiro insistia que a disciplina era fundamental.
— A cura não acontece de um dia para o outro — dizia.
Durante semanas, Maria seguiu todas as instruções.
Mas, a certa altura, o curandeiro disse-lhe que o tratamento precisava de avançar para uma fase mais profunda.
Falou-lhe de um ritual antigo que exigia isolamento, silêncio e entrega total. Disse que apenas assim o corpo poderia libertar-se do mal que a impedia de ser mãe.
Maria ouviu tudo com atenção.
Sabia que, se contasse ao marido todos os detalhes, ele provavelmente não aceitaria. Rui era desconfiado. Não acreditava facilmente em rituais.
E Maria queria acreditar.
Foi assim que, numa tarde abafada, sem dizer nada ao marido, voltou à casa do curandeiro sozinha.
A casa ficava rodeada por bananeiras altas, que fechavam o caminho com folhas largas e sombras densas. O ar ali dentro parecia sempre mais húmido e mais silencioso do que no resto da aldeia.
João Sitoe levou-a para o meio daquele pequeno labirinto verde.
Foi ali que disse que o ritual teria de acontecer.
Maria percebeu tarde demais que aquilo não era apenas uma cerimónia de cura. O curandeiro aproximou-se com uma naturalidade inquietante e explicou, com uma calma que parecia treinada, que a única forma de libertar o seu corpo era através de uma união espiritual entre os dois.
— É assim que a força passa — disse.
Maria ficou imóvel, enquanto ele tirava, uma a uma, as peças da roupa que a cobriam.
Parte dela queria acreditar que aquilo fazia parte do tratamento. Outra parte sentia que algo estava profundamente errado.
Mas o medo de nunca ser mãe pesava mais do que qualquer dúvida.
Quando tudo terminou, Maria voltou para casa em silêncio.
Durante algum tempo tentou convencer-se de que aquilo fazia parte da cura. Não contou nada do que havia acontecido ao marido. Continuou a visitar o curandeiro. Continuou a seguir as instruções. Ela própria já retirava a roupa para o ritual, sem ajuda do médico tradicional.
Mas segredos raramente ficam enterrados por muito tempo.
Um dia, o marido decidiu segui-la.
A desconfiança começou como um pequeno incómodo, mas cresceu até se tornar impossível de ignorar.
Naquela tarde, caminhou atrás da esposa sem que ela se apercebesse. Seguiu o mesmo caminho de terra, entrou entre as bananeiras e aproximou-se devagar.
O que viu ali dentro fez o sangue ferver.
Rui não gritou primeiro. Ficou apenas parado, tentando compreender o que estava diante dos seus olhos.
Depois avançou.
O curandeiro mal teve tempo de reagir. O confronto foi rápido e violento. Maria gritava, os dois homens empurravam-se e o silêncio das bananeiras transformou-se numa confusão de vozes e pancadas.
A notícia espalhou-se depressa pela comunidade.
Algumas mulheres defenderam o curandeiro. Diziam que ele era um bom homem, que tratava muitas doenças e que não tinha culpa se os rituais eram mal compreendidos.
Outras ficaram revoltadas.
Para elas, aquilo não era cura. Era abuso.
Nessa mesma noite, um grupo de mulheres decidiu ir à casa de João Sitoe exigir explicações.
O curandeiro tentou defender-se, dizendo que tudo fazia parte do tratamento tradicional.
Mas as explicações já não bastavam.
O caso acabou por chegar às autoridades.
Maria, entre vergonha e confusão, teve de contar o que tinha acontecido.
Rui, ainda ferido no orgulho e na confiança, repetia que tinha sido enganado.
E no meio de tudo ficou uma pergunta que ninguém conseguiu responder completamente.
Até onde pode ir a esperança de uma mulher que deseja ser mãe?
Porque quando a esperança se mistura com desespero, até a cura pode transformar-se numa armadilha.
E, naquela pequena aldeia de Sofala, entre bananeiras silenciosas, muitos perceberam tarde demais que nem todos os que prometem milagres sabem realmente curar.
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 16 de Março de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Redactorfavor ligar para 82/84/87 3085360 ou 844101414 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz
Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais ou pagando pelo paypal associado ao refinaldo@gmail.com.
Gratos pela preferência
Para ver a revista Prestígio de Janeiro/Fevereiro de 2026 clique este link:
Siga nos no Facebook e partilhe