À velha Maria ninguém rouba — LEANDRO PAUL

Na pequena localidade de Mavanza, distrito de Vilankulo, havia uma casa que todos conheciam.

Não era grande. Não tinha pintura recente. As paredes eram de barro antigo e o telhado de chapas gastas pelo sol. Mas havia qualquer coisa naquela casa que fazia os viajantes abrandar o passo quando passavam diante do portão.

Ali vivia vovó Maria.

Tinha mais de 70 anos e um olhar que parecia atravessar as pessoas. Alguns diziam que era apenas uma velha solitária. Outros diziam que ela conhecia coisas que não se aprendem em livros.

Na povoação havia quem jurasse que ela dominava segredos antigos.

— Aquela velha não é pessoa para se brincar — dizia-se nas conversas de fim de tarde.

Mas, apesar das histórias, Maria era conhecida sobretudo por outra coisa: a generosidade.

Quem batia à sua porta raramente saía sem um prato de comida, um conselho ou um lugar para descansar. Muitos viajantes que seguiam para a África do Sul tinham dormido uma noite no seu quintal antes de continuar caminho.

Foi assim que Jorge, de 17 anos de idade e Manuel, de 16, chegaram até ali.

Eram dois rapazes ainda novos, vindos de Inhassoro, com mochilas gastas às costas e o olhar inquieto de quem procura vida melhor longe de casa. Tinham passado dias a caminhar e procuravam apenas um lugar onde dormir antes de continuar a viagem.

Bateram à porta já quase noite.

Vovó Maria abriu devagar.

Observou os dois durante alguns segundos. Reparou nas roupas poeirentas, no cansaço estampado nos rostos e naquele nervosismo típico de quem vive sempre a olhar para trás.

Boa noite, mãe — disse Manuel. — Estamos de passagem. Amanhã seguimos viagem.

A velha ficou em silêncio.

Depois abriu mais o portão.

Entrem.

Preparou-lhes um prato de comida simples. Deu-lhes água. Mostrou-lhes um canto da casa onde poderiam descansar até ao amanhecer.

Quem anda longe da sua terra precisa de ajuda — disse ela, quase como quem fala consigo própria.

Os rapazes agradeceram. Comeram em silêncio. Durante algum tempo pareceram apenas dois jovens cansados do caminho.

Mas a noite tem um poder estranho sobre algumas consciências.

Quando a velha finalmente adormeceu, Jorge e Manuel começaram a olhar em volta com outros olhos. Já não viam apenas uma casa pobre.

Viam objectos.

Um rádio antigo. Um ferro de engomar. Uma pequena aparelhagem que repousava sobre um armário coberto de pó. Coisas simples, mas que poderiam valer algum dinheiro.

Ninguém vai saber — murmurou Jorge.

Manuel hesitou. Mas a tentação falou mais alto do que a gratidão.

Moveram-se devagar pela casa. Tiraram os objectos com cuidado. Meteram tudo numa mochila. Quando terminaram, saíram na escuridão sem fazer barulho.

Na manhã seguinte, a casa estava silenciosa.

Vovó Maria levantou-se cedo, como sempre fazia. Quando percebeu que os rapazes tinham partido, pensou que simplesmente tinham continuado a viagem.

Só mais tarde descobriu o que faltava.

Não gritou. Não chorou.

Sentou-se apenas no banco de madeira diante da casa e ficou a olhar para o caminho de terra por onde eles tinham desaparecido.

A essa velha não se rouba — murmurou uma vizinha, quando soube da história.

Mas os rapazes não sabiam dessas coisas.

Seguiram caminho até venderem tudo a um mineiro que regressava da África do Sul. O negócio foi rápido. Receberam trezentos e dez rands por tudo o que tinham levado.

Gastaram o dinheiro em poucos dias.

Parecia o fim da história.

Mas três semanas depois aconteceu algo inesperado.

Jorge e Manuel apareceram novamente na aldeia.

Não vinham confiantes como da primeira vez. Vinham inquietos, quase assustados. Procuraram a casa de vovó Maria como quem procura um refúgio.

Quando a velha os viu aproximar-se, não mostrou surpresa.

Então voltaram — disse.

Os rapazes baixaram a cabeça.

Manuel foi o primeiro a falar.

Mãe… precisamos confessar.

Contaram tudo. O roubo. A venda dos objectos. O dinheiro gasto. Falaram como quem precisa de tirar um peso do peito antes que ele se torne insuportável.

Mas o que mais os assustava não era a vergonha.

Era o que tinha acontecido depois.

Desde aquela noite, diziam eles, nada correra bem. Um perdera o trabalho que pensava conseguir. O outro adoecera subitamente. Dormiam mal. Tinham sonhos estranhos. Sentiam como se alguma coisa os estivesse a seguir.

Pensámos que era castigo — disse Jorge.

A velha ouviu tudo em silêncio.

Depois levantou-se devagar.

Castigo é a consciência — respondeu.

Os rapazes ficaram quietos.

Vovó Maria aproximou-se deles.

O mal que vocês fizeram não foi levar o rádio ou o ferro. O mal foi esquecer que comeram do meu prato.

O vento passou pelas árvores do quintal.

Mas quem reconhece o erro ainda tem caminho — acrescentou.

Naquela tarde, os dois rapazes ajudaram a velha no quintal. Trabalharam em silêncio, como quem tenta pagar uma dívida que não cabe em dinheiro.

Quando o sol começou a descer, vovó Maria trouxe-lhes novamente comida.

Agora podem seguir viagem — disse.

Jorge e Manuel saíram dali diferentes.

Não sabiam se tinham sido perdoados. Não sabiam se o destino lhes daria outra oportunidade.

Mas sabiam uma coisa.

Em Mavanza havia uma casa pequena onde uma velha sabia mais sobre justiça do que muitos tribunais.

E, desde então, quando alguém falava do episódio, repetia sempre a mesma frase:

Aquela velha pode não matar ninguém… mas roubar a vovó Maria é coisa que ninguém faz duas vezes.

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 23 de Março de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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