Os gémeos que o fogo não encontrou— LEANDRO PAUL

Na aldeia de Congolote, o fogo não destruiu apenas uma casa.

Destruiu a fronteira entre o medo e a superstição.

Tudo começou numa noite de vento fraco, quando a palhota dos irmãos gémeos começou a arder sem aviso.

Primeiro ouviu-se um estalo seco, como madeira a partir-se devagar. Depois vieram as chamas, altas, famintas, iluminando o escuro da aldeia como se fosse dia.

As pessoas correram com baldes, panelas, areia, tudo o que pudesse servir para combater o incêndio.

Mas o fogo já tinha decidido crescer.

Quando finalmente conseguiram aproximar-se da palhota, o tecto havia desabado quase por completo. O calor ainda empurrava os curiosos para trás.

Foi então que alguém perguntou pelos gémeos.

Onde estão os meninos?

Seguiu-se um silêncio estranho.

Pesado.

Os gémeos albinos, Ângelo e Mito dormiam ali.

Ou deviam dormir.

Mas não estavam.

Durante alguns minutos, ninguém percebeu o que dizer.

Os vizinhos entraram em pânico. Uns gritavam os nomes dos rapazes. Outros procuravam pegadas à volta da casa. Alguns juravam ter visto sombras a correr pouco antes do incêndio.

E, como acontece sempre quando a explicação demora a aparecer, começaram a nascer outras versões.

Versões mais antigas do que o próprio fogo.

Naquela região, ainda havia quem acreditasse que gémeos albinos não morrem como as outras pessoas.

Diziam que desaparecem. Que “são levados”. Que o corpo não fica.

— Esses meninos tinham espírito forte – murmurou uma velha encostada a um embondeiro- Albinos não desaparecem por acaso.

A frase espalhou-se depressa.

Antes mesmo de amanhecer, já havia quem garantisse que os rapazes tinham saído do mundo dos vivos sem deixar rasto.

O pai dos gémeos, Pedro Matola, não sabia o que fazer com tanta gente à volta da sua dor.

Na noite em que o fogo consumiu a casa, ele estava ausente.

A dormir numa outra palhota.

 Homem pobre, acostumado ao peso da terra e da enxada, Pedro perdera a esposa meses antes.

A mulher morrera de doença prolongada, deixando-lhe dois filhos frágeis e demasiado diferentes para uma aldeia que sempre olhou para o albinismo com desconfiança.

Criar aqueles meninos nunca tinha sido fácil.

Havia quem evitasse tocar-lhes.

Quem não os deixasse brincar com outras crianças.

Quem cochichasse quando eles passavam.

Mesmo assim, Pedro protegia-os como podia.

Agora, diante da palhota reduzida a cinzas, sentia-se vazio.

Procurem bem! – Repetia. — Os meus filhos não podem desaparecer assim.

Mas as buscas não encontraram nada.

Nem corpos.

Nem ossos.

Nem sinais claros.

E foi precisamente essa ausência que alimentou o medo.

Na manhã seguinte, um grupo de homens decidiu procurar um curandeiro.

Queriam respostas.

Queriam uma explicação que fizesse sentido para o que os olhos não conseguiam entender.

O curandeiro ouviu tudo em silêncio.

Depois fechou os olhos durante alguns segundos e disse apenas:

O fogo levou o que já não pertencia à terra.

A frase caiu sobre a aldeia como mais lenha sobre brasas.

Algumas mulheres começaram a chorar.

Outras fizeram o sinal da cruz.

Houve quem defendesse que os meninos tinham sido “reclamados pelos espíritos”.

Mas nem todos acreditavam.

Um jovem professor da escola local insistia noutra versão.

Isto foi fogo normal – dizia.

Talvez os rapazes tenham fugido antes.

Mas a razão, naquela altura, já tinha pouca força.

Porque o medo é mais rápido do que a lógica.

Dias depois, começaram a surgir rumores.

Diziam que os gémeos tinham sido vistos perto da fronteira da África do Sul.

Outros juravam que um carro estranho passara pela aldeia naquela noite.

Havia até quem suspeitasse de tráfico de pessoas.

Mas nenhuma versão foi confirmada.

E, aos poucos, a verdade começou a misturar-se com o mito.

Pedro Matola nunca voltou a ser o mesmo homem.

Continuou a viver perto das ruínas da antiga palhota, como se esperasse ouvir novamente as vozes dos filhos.

À noite, às vezes, jurava escutar passos pequenos perto do quintal.

Noutras ocasiões, levantava-se subitamente porque lhe parecia ouvir os dois meninos a rir.

Os vizinhos diziam que era a dor.

Outros diziam que eram os espíritos.

Pedro nunca respondeu.

Limitava-se a olhar para o lugar onde antes existia uma casa.

Com o passar do tempo, a aldeia reconstruiu-se.

O fogo apagou-se.

As conversas diminuíram.

Mas a história dos gémeos albinos nunca desapareceu completamente.

Ainda hoje, quando o vento sopra mais forte em Congolote e a noite cai cedo demais, há quem fale dos dois irmãos que desapareceram sem deixar corpo.

E há quem jure que, naquela noite, o fogo queimou a palhota inteira.

Menos o destino dos meninos.

©LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 11 de Maio de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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