Choques globais e o dilema económico de Moçambique — ALFREDO MUCAVELA
As últimas manifestações das populações [ocorridas entre Outubro de 2024 e Março de 2025] e a intensidade dos acontecimentos globais registados nos primeiros meses deste ano lembram que a instabilidade deixou de ser excepção para se tornar uma constante. Tensões geopolíticas, restrições ao financiamento internacional e disrupções no comércio global continuam a afectar economias em todo o mundo — África e Moçambique, em particular, não são excepção.
Ainda assim, o continente, duma forma geral, tem demonstrado uma resiliência assinalável. As projecções apontam para um crescimento económico africano superior à média global nos próximos anos, sustentado por maior integração regional, investimentos em energia e infraestruturas e uma população jovem em rápida expansão. Iniciativas como a Área de Comércio Livre Continental Africana reforçam esta trajectória, ao aumentar o comércio intra‑africano e reduzir a dependência de mercados externos.
Moçambique insere‑se plenamente nesta dinâmica continental, beneficiando das mesmas oportunidades, mas também exposto a fragilidades estruturais profundas, diga-se de passagem, são fragilidades que bloqueiam o desenvolvimento do país. Os grandes projectos de gás natural colocam o país numa posição estratégica no mapa energético africano, com potencial para transformar a economia, atrair investimento e gerar receitas fiscais relevantes. Num continente pressionado pela necessidade de segurança energética, Moçambique é visto como parte da solução.
Contudo, este potencial contrasta com uma realidade social difícil. A extrema pobreza continua a afectar milhões de moçambicanos, limitando o impacto do crescimento económico na vida da maioria da população. O elevado custo de vida, o desemprego juvenil e o acesso limitado aos serviços básicos alimentam frustrações que se traduzem em convulsões sociais recorrentes, sobretudo em centros urbanos. Como se todos problemas não fossem suficientes, a falta de continuidade das políticas económicas e programas de desenvolvimento traçados pelos sucessivos governos de Moçambique, criam algum embaraço para o desenvolvimento socio-económico contínuo do país.
A situação na província de Cabo Delgado agrava este quadro. A guerra em curso tem um impacto humano devastador, compromete a estabilidade regional e condiciona o ritmo de implementação dos projectos de gás. A insegurança afasta investimento, aumenta os custos operacionais e expõe a fragilidade do modelo de crescimento quando este não é acompanhado por inclusão social e desenvolvimento local efectivo.
Neste contexto, julgo que a experiência africana oferece lições importantes. A mobilização de capital regional, o fortalecimento dos mercados financeiros domésticos e o investimento em inovação tecnológica surgem como caminhos essenciais para reduzir vulnerabilidades externas. A modernização dos sistemas financeiros e a maior inclusão económica podem ajudar a transformar crescimento em desenvolvimento.
Moçambique enfrenta, assim, um dilema central: possui recursos estratégicos e enquadramento regional favorável, mas carrega desafios políticos, sociais e de segurança que não podem ser ignorados. Sem paz, estabilidade, inclusão e confiança social, os ganhos macroeconómicos permanecem frágeis e desigualdades tendem a aprofundar‑se.
Num continente que procura converter resiliência em prosperidade, o futuro de Moçambique dependerá menos da abundância dos seus recursos naturais e mais da capacidade de transformar oportunidades económicas em benefícios tangíveis para a sua população através do processamento e transformação dos recursos acima referidos, criando postos de emprego para milhares de jovens. Essa é, talvez, a principal lição num mundo cada vez mais marcado por choques globais e incertezas persistentes.
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 01 de Junho de 2026, na rubrica de opinião.
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