Quando o próprio Estado não confia nos seus hospitais — RAFAEL NAMBALE

A saúde pública e a crise de confiança em Moçambique

Há dores que não aparecem nas estatísticas. Dores que vivem dentro das famílias, nos corredores dos hospitais, nos olhos cansados das mães, no silêncio dos pais e na ansiedade de quem passa noites inteiras sem saber se o seu familiar resistirá até amanhecer.

Em Moçambique, adoecer tornou-se, para muitos cidadãos, uma experiência de medo.

Medo de não encontrar medicamentos. Medo de chegar tarde demais.

Medo de não ser atendido. Medo de não ter dinheiro suficiente.

E, sobretudo, medo de sentir que a própria vida vale pouco diante da fragilidade do sistema.

Cinquenta anos depois da independência, a saúde continua sendo uma das maiores inquietações silenciosas do povo moçambicano. E talvez exista uma pergunta que resume, com dureza, a crise atual:  se os próprios dirigentes não confiam plenamente nos hospitais públicos que administram, como querem que o povo confie?

É uma pergunta dura. Mas nasce da realidade que as pessoas observam todos os dias.

O cidadão comum raramente vê figuras do poder nos hospitais públicos. Quase nunca escuta que altos dirigentes ou seus familiares recorreram naturalmente ao mesmo sistema usado pelo povo. Pelo contrário: quando a situação é séria, a tendência parece ser procurar clínicas privadas ou tratamento no exterior.

E o povo percebe isso. Percebe em silêncio. Comenta nos transportes. Nas filas. Nos mercados. Nas casas. Nas conversas baixas entre vizinhos. Porque o povo pode não dominar linguagem técnica, mas entende sinais. E talvez nenhum sinal seja mais forte do que este: quem dirige o sistema parece não querer depender dele. Isso cria uma ferida profunda na confiança colectiva.

A saúde pública deveria ser o lugar onde o cidadão mais humilde sentisse proteção, dignidade e humanidade. Um espaço onde a pobreza não condenasse ninguém ao abandono. Mas, para muitas famílias, a ida ao hospital transformou-se numa mistura de esperança, sofrimento e resignação.

Há mães que passam horas sentadas no chão segurando crianças febris. Há doentes transportados em condições dolorosas. Há famílias que vendem bens para comprar medicamentos básicos. Há pacientes que aguardam atendimento agarrados apenas à fé.

E talvez o mais triste seja isto: o sofrimento começou a tornar-se normal. Normalizaram-se as filas intermináveis. Normalizou-se a falta de medicamentos.

Normalizou-se a sobrecarga dos profissionais. Normalizou-se o desespero silencioso de quem não tem alternativa.

Quando um povo se habitua ao sofrimento, algo perigoso acontece: a indignação começa lentamente a morrer. E uma sociedade que perde a capacidade de indignar-se diante da dor humana corre o risco de aceitar a precariedade como destino.

Entretanto, seria injusto ignorar aqueles que continuam a sustentar o sistema quase por missão humana. Existem médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares que trabalham com enorme sacrifício, muitas vezes sem condições adequadas, tentando salvar vidas num contexto extremamente difícil. Muitos deles também sofrem com o abandono estrutural da saúde pública.

O problema, portanto, não é apenas hospitalar. É político, moral e humano. Porque um hospital não é apenas um edifício. É um retrato do valor que um país dá à vida dos seus cidadãos.

Quando os hospitais públicos deixam de inspirar confiança até aos próprios dirigentes, instala-se uma mensagem perigosa: a ideia de que existem dois países — o dos que podem escapar e o dos que são obrigados a resistir. E nenhuma nação constrói estabilidade verdadeira sobre esse tipo de desigualdade emocional.

Moçambique não precisa de milagres na saúde. O povo não exige luxo. Exige apenas dignidade: medicamentos; atendimento humano; equipamentos funcionais; profissionais valorizados; e a sensação de que a vida do cidadão comum também importa.

Talvez o verdadeiro começo da reconstrução da confiança aconteça no dia em que os dirigentes sentirem, na própria pele, a realidade dos hospitais que administram. Porque governar um povo deveria significar mais do que discursar sobre ele. Deveria significar partilhar o seu destino.

©RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 01 de Junho de 2026, na rubrica de opinião.

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